Última

O bip do relógio alertou as horas. Continuei deitada, entre desperta e sonhando, enquanto ele levantou-se e recolheu suas roupas espalhadas pelo quarto, fazia isso em silêncio, soturnamente. Espreguicei-me na cama e observei- vestindo-se. Ele sorriu-me levemente envergonhado, ignorei suas reações, queria guardar bem aquele momento, pois seria o último.

Naquela noite mais cedo, ao ver seu nome no visor do meu celular percebi que aquilo teria que terminar. Nada estava saturado em nossa inconstante relação de noites, mas eu não podia mais sustentar aquela situação. Ele inclinou-se, e eu sabia que era para me beijar, normalmente eu não o aceitaria, mas aquela era a última vez. Seria uma despedida. Beijei-o, um beijo cálido, calmo, carinhoso. E, talvez, pela primeira vez ele olhou-me, realmente, nos olhos. Senti que naquele momento nós nos conhecemos, depois de tanto tempo. Colocou a mochila nas costas e saiu, dali a alguns minutos, ouvi o carro dando partida, pela última vez.

Esparramei-me novamente na cama, o perfume dele impregnado nos travesseiros, nosso cheiro pairando no ar. Levantei-me enrolada no lençol e abri a janela, a brisa matinal entrou fresca. Deitei-me na cama, o aroma não passando de uma leve lembrança. A luz morna e aconchegante do sol embalando em um sono calmo.

A presença dele agora mal aparecia na minha bagunça, a noite com ele, a última e todas as outras, eram apenas murmurios vagos, sonhos fracos e distantes. Adormeci em sonhos brancos, placidos, ladeada por um a parca ausência de uma presença que parecia ter estado ali.

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Porta

Fecho a porta do quarto com cuidado, tomando cuidado para não fazer nenhum barulho, prestando atenção para não incomodar ninguém. Já sou incomoda o bastante sozinha. Encosto na parede e vou escorregando devagar até chegar ao chão. Seguro o ar, com medo de fazer barulho, com medo de assustar, quem sabe a mim mesma. Suspiro e começo a chorar baixinho. As lagrimas escorrem soltas por meu rosto, não a nada a se fazer. Posso olhar em volta e ver o que restou, uns livros seus na estante, alguns cds que você deixou, uns poucos filmes restaram, as blusas que ficaram perdidas no armário. Tiro as sandálias e jogo-as a um canto, vazio e sem sentido, outro canto abandonado.

Não são todos os dias tão ruins assim, alguns são realmente bons e outros, nem tanto. Como ontem, ontem foi um bom dia. Sai com minhas amigas da faculdade, e o barulho e os risos me distraíram, me tornaram leve, fui dormir em paz. Mas hoje, hoje eu vi o silencio e é no silencio que vejo você. E não era o nosso silencio, era o meu silencio longe do seu, era o seu silencio com outra.

Não sei quanto tempo passou desde que saiu de casa, foi embora e levou a sua parte da bagunça. Tudo agora é tão excessivamente arrumado sem você, preferia antes, com nossa bagunça, nosso cheiro, nossa brincadeira, nosso silencio.

O chão está frio e eu quase posso ouvir você dizendo: “Saia do chão vai pegar um resfriado sua irresponsável”. Riu sozinha com minhas lembranças gostosas e me imagino respondendo “Não vou sair seu chatinho responsável, deixe-me ser feliz em paz”. Mas os tempos são outros e as falas são outras.

Levanto devagar, não quero fazer meu mundo girar novamente, minha constante tontura me basta. Tontura, enjôo, meu mundo gira, perdi meu ponto de equilíbrio. Sempre fui meio desequilibrada, caindo pelos passos e repassos, literal e figurativamente falando. Nunca estive em perfeito equilíbrio com nada, por isso corria tanto, mudava tanto, não me importava tanto. Mas com você era diferente, me sentia em equilíbrio, em sintonia com algo. Ao que parece, estava errada, ou era só você que não estava em equilíbrio.

Uns passos trôpegos me levam até a  cama desarrumada, como sempre, não me dei o trabalho de arrumá-la para não ter o trabalho de desarrumá-la mais tarde. Jogo-me sobre os lençóis revirados e percebo quanto temos em comum. Ambos jogados em cima da cama, largados de qualquer jeito, sem ninguém que se importe o bastante para segurar e nos arrumar.

Durmo ouvindo atentamente o silencio. Adormeço atormentada pelo espaço extra na cama. No fundo, eu só espero que você abra a porta, atravesse o quarto e deite comigo na cama, como antes, como quando era certo. Ouço o silencio da esperança de ouvir o seu barulho e a sua bagunça voltando para casa, mas de um modo ou de outro eu sei que é tudo ilusão. Se você por um acaso adentrar pela porta, não será para me pegar nos braços, sussurrar nos meus ouvidos tudo o que fará comigo, me jogar na cama e me segurar bem forte dizer que me quer antes de me beijar. Não, se você entrar pela porta será para pegar os livros que esqueceu, os filmes que tanto gosta, uma camisa que te deixa particularmente charmoso, e só.

Afasto tais pensamentos com a força das lagrimas que escorrem. Preciso dormir, preciso sonhar, preciso continuar e dessa vez será sem você. Abraçada lealmente à noite, as lagrimas, ao lençol, eu durmo ouvindo ao silencio.

Ressaca

O mundo gira.
A cabeça doi. Os olhos ardem. O cenário é excessivamente colorido. Cada alfinete produz o som de uma parada. A luz invade o quarto agressivamente. Estica o braço procurando um cobertor. A movimentação apenas aumenta o girar do mundo. Geme de dor. Levanta-se lutando para manter-se de pé e olhos abertos. Bambaleante tateia até a cozinha à procura de remédios. Acha um vidro. A sinistra dor impede que veja. Tomou mesmo assim. Os comprimidos descem amargos. Adoça-os com a garrafa que está ao lado. Vodka. Rasteja de volta para o sofá. Joga-se encarando o teto, esperando. Esperava a dor passar. Esperava o mundo para de girar. Esperava a força voltar. Sentia o inchaço diminuir. E a dor querer começar a passar. Já até conseguia manter o olho aberto. Esticou-se para a mesinha. Repousavam ali o maço e o isqueiro, ambos adormecidos. Cansados de dormir, eles queriam acordar. Apoia frouxamente o cigarro no canto da boca. As mãos tremulas e aflitas riscam o isqueiro. A chama tremeluz com o vento, com a fraqueza. A brasa acende-se timida. Traga necessitadamente. Incitada ela cresce, fortalece. A fumaça enche o ar a sua volta. O cheiro caracteristico reafirma-se. Anestesia-se com um outro trago, com outro gole. Volta a noite anterior. A luz baixa e delirante. A música pulsante. A dança sensual. A solidão prolongada fez o resto. Ou melhor, fez o final. Entrou em um turbilhão frenetico. O constante apelo. O desejo latente. O prazer rapido e satisfatório. Nada de muitas palavras. Quase sem conversa. Só o fisico importava. Ambos sabiam disso. Ambos gostavam disso. Ambos queriam isso. Vestiu-se e partiu. Nada foi dito. Havia um acordo mudo entre eles. Desceu a rua. Parou um taxi. Murmurou seu endereço. Cambaleou escada a cima. Caiu no sofá. Dormiu. E agora o arrependimento começava a rondar. Péssimo habito que havia adquirido. Deixava-se levar pelos ambientes, pelos desejos. Para nas manhãs seguintes arrepender-se. O prazer proporcionava-lhe uma alegria instantânea. O arrependimento sutilmente minava-lhe tudo. Era estranhamente masoquista. Precisava sentir aquilo. A partida, tempos atrás, fora traumática. A sua partida fora traumática. Tão traumática que não suportou, matou-se. O fato gravou-se em sua mente. Não superou sua morte. Não superou ser a causa da morte. A melancolia tragica abalou sua vida. Impunha-se naquela situação. Aflingia-se para desculpar-se. Jamais admitira isso, porém. Levantou-se e foi para o banheiro. Tinha que tomar um banho. Seu ciclo masoquista deveria recomeçar.

Vento e Chuva

 

Forte, intenso, cantante. O vento passava imperdoável, anunciando uma tempestade. Uma melodia pesada, densa, furiosa. As árvores agitavam-se e os galhos se dobravam quase ao ponto de quebrar. Estava sentada na janela, de olhos bem fechados. Fazia frio, muito frio, embora fossem apenas três da tarde. Estava com meus braços envoltos em mim, em um abraço apertado para fugir do frio, encolhida no meio da janela bem aberta. Deixava que o vento passasse, sentia o vento passando.

Pelo horário, pelo dia, estava sozinha em casa, era sábado. Trazidas pelo vento, folhas, poeira e galhos entravam na casa imaculadamente limpa. Simplesmente não se importava, virou o rosto para dentro. Os olhos bem abertos, olhou de um lado ao outro da sala, tudo tomado pelas folhas secas de inverno. Voltei a fechar os olhos, e virar o rosto para fora, para o vento.

Nada trás mais liberdade que o vento. Desde pequena, sempre gostei de simplesmente ficar no vento e sentir. Meus cabelos embaraçados, com nós e folhas, agitavam-se para trás. Era como se o vento passasse por mim e não deixasse nada, nenhuma lágrima, nenhum sorriso. Era possível recomeçar depois do vento.

Soprou mais forte. “A chuva vai cair daqui a pouco” pensei. Tomei coragem e abri os braços, deixei que o vento passasse inteiramente por mim. Ainda sentada na janela, com os braços abertos, sentia como se voasse. Sei que é besteira, uma infantilidade. Mas não importa-me, sempre que sinto o vento passar, fecho os olhos e imagino que estou no alto, acima das nuvens.

Nada pode me tocar, ou me ferir, e eu não posso me decepcionar ou machucar. Ninguém quebrará meu coração, ou me deixará em vão. Sozinha no alto das nuvens, minha imaginação de criança, me transforma em sonho.

Sei que tudo não passa disto, imaginação fértil de uma criança. Mas é bom poder sonhar durante dez segundos que sejam. O vento fica mais frio e passa arrastando cada vez mais forte. Posso  até ouvir a voz de minha mãe gritando “Cuidado, você vai cair dai”, em resposta eu riu. Riu sozinha, para o vento, único a presenciar a inexistentes discussão com minha mãe.

Salto e corro para a rua. A chuva não demora a chegar, e é tão bom sentir a chuva. Mal toco a grama, e ela começa torrencial, fria, pesada. É um verdadeiro manto, que chora sobre a cidade, não é possível ver nada além do muro do quintal.

Deitada na grama do quintal, sinto as gotinhas baterem em mim, parecem-me mais com bolinhas de chumbo jogadas do alto. Tão pesadas, tão pequenas. Olho para cima, tento ver as nuvens, mas a chuva bate com força em meus olhos, sou obrigada a mantê-los fechados.

De olhos fechados, tento sentir o vento, mas tudo o que sinto, são as pontadas de dor passageira que as gotas de chuvas me deixam. Tento me imaginar novamente voando, acima das nuvens, inalcançável. Mas não há vento para me fazer voar. Permanece ancorada, enraizada no chão. A grama me pinica, me causa coceira, mas não levanto. É bom sentir a chuva. Ancorada a realidade, percebo que não conseguirei, por enquanto, fechar os olhos e sonhar. Aproveito que estou encoberta e rio sozinha de minhas loucuras. Trancada em minha mente, deixo fluir meus pensamentos insanos. Ninguém para me ver. Ninguém para me julgar. Ninguém para me analisar. Encoberta pela chuva eu fico anestesiando-me com meus sonhos reais. É tão bom sentir a chuva.

Gotas de Chuva

Aterrou-se a cama. Da janela vislumbrava-se o violeta da madrugada pontilhado por estrelas. Arriscou um olhar para cima. Faltou-lhe vontade ou, quem sabe, força. De os olhos bem fechados, e dos lábios fugindo sussurros de uma musica, todo o mundo não passava de um vulto.
Em um cantinho perdido de sua mente, o tintilar de gotas ritmadas ecoou. Ignorou-as. Concentraram-se ainda mais nos mil pensamentos que tinha. A confusão natural que era. Ajudavá-a em manter-se distraída dos fantasmas dos gritos e soluços.
“HEY”, o grito vibrou no quarto vazio.
Aquela voz. Sabia a que boca pertencia à voz. O coração disparado a mil. Parou estática sobre a cama. Sequer atrevia-se a respirar. O medo crescendo no abismo. A ansiedade aflorando nas pontas dos dedos. E na janela, as pedrinhas pulando e pontilhando ritmadas. Uma única certeza permeou-se, ele não desistiria. Suspirou.  Pulou da cama e deitou-se janela a fora, com metade do corpo para fora, para encontrá-lo quase boca a boca com ela.
O cabelo longo e castanho roçava-lhe o rosto, encobrindo-lhe os olhos da luz lunar. Os lábios, porém, muito bem iluminados, exibiam o conhecido sorriso confiante.
“Que quer?”, indagou sussurrando irritada.
 “Você”, ele riu de sua expressão espantada, levantou a mão para tocar-lhe o rosto, que ela exasperada afastou. Em vez disso, ele então lhe segurou a mão. “Vem comigo”
Encarou os olhos castanhos claros a sua frente. Eram absurdamente sinceros, ela sabia. Mostravam a persistência habitual. Olhou de relance para o quarto abandonado por um segundo antes de passar uma perna por cima da janela e começar a descer.
Antes que pudesse tocar o chão ele segurou firme sua mão e com a outra a enlaçou pela cintura e depositou-a delicadamente no chão. Olhou-o incompreensiva, lutava internamente, tentando entende-lo. Mas ele não lhe deu tempo para tal. Puxou sua mão com força e correu. Ela seguia-o curiosa, tentando acompanhar-lhe os passos.
Por muito tempo olhou confusa para os lados, sentiá-se perdida e deslocada. Até que ao dobrar de uma esquina viu-se frente a frente a um conhecido lugar. Embora não viesse ali desde os 10 anos, poderia perambular por ali de olhos fechados. Sabia exatamente onde ele estava levando-a.
Ao começar a subir, pararam de correr. Andavam lado a lado. As mãos entrelaçadas em um contrato silencioso de proximidade.
Ele caminhava olhando para baixo. Aparentemente, todo o seu ímpeto havia sido deixado para trás, junto com a janela. Ela sorriu. Divertia-se com a atitude desconsertada dele. Passou a analisá-lo.
Os olhos castanhos claros sempre divertidos e persistentes. O cabelo muito preto caindo-lhe desarrumado pela testa. Os cílios marcando uma fina sombra sobre as bochechas sardentas e rosadas. A boca fina traçando um conhecido sorriso confiante. O porte grande que nunca condizia com o ar de menino.
Ele levantou os olhos e encarou-a. Sorriu. Sorriu-lhe de volta. Pararam. Perderam o tempo apenas olhando-se, sorrindo. Até que uma gota caísse entre eles, e os fizesse lembrar.
Juntos olharam para cima e correram. Um riso puro e sincero. Como nenhum dos dois ouvia desde aquela tarde fatídica. Redescobriram um no outro a alegria pura.
Olharam-se, riram e voltaram a correr. Subiram o velho morro até o alto.
Ainda rindo ela jogou-se na grama abaixo da árvore. Ele sentou-se frente a ela, rindo ainda. O riso foi diminuindo, até cessar. Ela voltou seus olhos para cima, e ele, para ela.
Os cabelos molhados grudaram-se em seu rosto, moldurando-o. Os olhos claros, cor-de-mar, naquele azul e verde, exibiam o típico olhar distante e concentrado. O nariz levemente empinado torneado por pintinhas tão claras que só se viam bem de perto. A boca bem desenhada levemente aberta, em um suspiro cantado.
“As estrelas estão perdidas na chuva”, riu ela, os olhos voltados para cima
 “Elas apenas se esconderam de vergonha”, comentou ele serio
 “Vergonha?”, perguntou voltando seu rosto para ele
 “Não aguentaram não serem tão…”, e a frase perdeu-se no ar, pois ela havia se levantado com o parar da chuva e agora estava no balanço
Resignado ele caminhou lentamente paro o lado dela. “Como pode, tão perceptiva e tão lerda ao mesmo tempo?”. Jamais conseguiria compreender a mente da garota ao seu lado. Confiante, inteligente, perspicaz e ao mesmo tempo tola, ingênua e lerda. Sorriu e sentou-se no velho balanço que rangeu sob seu peso.
Ela ria deliciada com o vento que passava por seus cabelos. O sabor da noite invadindo-lhe a boca. A sinfonia lunar rodeando-lhes. A energia infantil foi aos poucos cessando, e o balança, ela foi parando. Apenas o riso não cessava. Livre pela primeira vez em tanto tempo. A liberdade extravasa em forma de alegria.
Parou então, ao lado seu. Imagem e sintonia. E o riso também parou. Pois prenderam os dois, um no outro. As mãos atadas firmemente nas correntes, brancas de medo e terror, e a ansiedade crescente, a incerteza dominando-lhes a mente.
Tantos anos juntos. Lado a lado. As brigas. Os risos. A vida. Partilhado, e depois daquela tarde, dividido.
Naquele momento então, sob a lua a testemunhar, redescobriram-se por fim. As mãos acalentadas pela certeza dos corações seguiram cegas certeiras, tateando a se encontrar. Apertaram-se justas, reforçadas pelo conforto carinho e calor. Sorriram-se.
“Promete não brigar mais?”, sussurrou medrosamente para ele
 “Só se você prometer”, sussurou-lhe em resposta, temendo atrapalhar o momento.
E numa promessa mutua e muda, sorriram. As mãos juntas bem apertadas. Levantaram-se juntos.
“Para sempre…”, começou sorrindo para ele e dando um passo em sua direção
 “Desde sempre…”, continuou aproximando-se dela
Os lábios sorridentes agora quase grudados. Haviam crescido juntos. Aprendendo e amadurecendo. Agora aprendiam novamente um com o outro. Redescobriam-se aos poucos. O calor emanava de ambos, estarem juntos era ameno, reconfortante, natural.
“Amigos e irmãos”. Completaram juntos, rindo, de mãos muito unidas, desceram correndo o morro baixo, enquanto atrás dele, o sol erguia-se pincelando o céu de laranja e vermelho.

Balança ao vento

 

O vento corria soprando baixinho, cauteloso, quase como se temesse assustá-la. Ela estava sentada no balanço, as mãos frouxamente segurando as correntes de aço, os pés mal tocando o chão. Balançava-se vagarosamente, sem realmente importar-se com o que fazia. O olhar voltado para baixo não se fixava nas folhas secas que rolavam pelo chão de outono, nem na terra batida e seca dos muitos meses sem chuva, muito menos na grama rala e amarela que crescia fracamente, arrastando-se. Seu olhar fixava-se em algo que não se pode ver. Encarava fixamente o passado. Olhava nos olhos de si mesma. E por isso estava tão quieta e tão imóvel. Temia que qualquer movimento mais brusco pudesse assustar-se e fazer com que fugisse de si mesma, e que seu passado esmaecesse em meio às brumas de suas lembranças. Agia calmamente, descobrindo-se e investigando-se aos poucos, com medo do que poderia encontrar, embora, inevitavelmente, soubesse o que a esperava e qual seria o desfecho da história. Não, olhava o passado com o olhar de quem busca entender uma difícil história, ou um complexo problema matemático. Tinha o olhar atento de quem procura entender as pessoas, a vida, a si. O vento balançou seus cabelos, tão levemente que o mais atento dos observadores não teria percebido, mas estava tão imersa em si que qualquer mínima distração ou movimento lhe era perceptível. Por um segundo levantou os olhos e encarou o presente. Viu o quintal amarelado pelo sol fraco de outono, as folhas secas levadas pelo vento, a grama rala e sem vida, o fundo da casa branca e com a pintura descascando em alguns pontos. Nada de anormal, nada de inesperado. Voltou os olhos para baixo e para si. A verdade é que havia se apaixonado pela primeira vez. Nunca antes havia gostado de ninguém, não por falta de escolha, mas por falta de querer. Quem olhasse para ela veria uma garota de beleza normal, que as vezes tinha um brilho, uma faísca de vida, uma centelha de graça, que a dotava de uma beleza estonteante. Tinha consciência disso, e gostava que fosse assim, sentia-se diferente, especial. Aqueles que a conheciam, rapidamente a colocavam em um lugar dentro de seus corações, mas ela por mais que se esforçasse não conseguia fazer o mesmo. Não é que não gostava deles, gostava, mas do mesmo modo que se gosta de um irmão, tinha-lhes o apresso de amigos queridos. Não entendia como algumas amigas gostavam tão facilmente, apaixonavam-se tão facilmente, e como para ela era um martírio e um sacrifício gostar minimamente de quem quer que fosse. Não era questão de beleza, ou inteligência, ou afinidade, ou todas juntas, ou aos pares. Já havia encontrado garotos, homens de todas as formas. E apesar de sua feição levemente angelical e de seus pensamentos por hora românticos e castos, divertia-se muitos com os homens e garotos errados que encontrava em sua vida. Não tinha o que mais ansiava, mas mesmo assim, era feliz. Até ele. Encantara-se a primeira vista, como ocorrera com tantos outros. Mas diferente dos outros, o encanto não passou. Perdurou e mais, cresceu. A convivência, a afinidade que tanto os aproximava, fazia com que o encanto apenas crescesse. Sua inteligência afiada e seu charme natural eram para ela ainda mais irresistíveis que o doce preferido a uma criança. Tudo o que queria era estar com ele o tempo todo, e quando estava com ele, tudo o que queria era sentir o calor do corpo dele e o gosto de sua boca. Ouvir seus pensamentos inteligentes e seu conhecimento amplo. Não era inexperiente. Sabia disso. Mas perto dele e de toda a sua vivencia, sentia-se uma garotinha de 13 anos a espera do primeiro beijo. Já havia estado com homens mais velhos, mais inteligentes, mais charmosos. Mas algo nele a atraia como nenhum outro havia feito. E isso a maravilhava. E isso a horrorizava. E se… ele não gostar de mim … me achar infantil … muito nova … muito burra … muito inexperiente … feia … gorda … irritante … sarcástica … irônica … inteligente … esperta… bonita. Tudo era motivo para medo e reprovação, suas qualidades e defeitos, eram repentinamente defeitos horríveis e irreparáveis. De naturalmente confiante e alegre, passara a ser insegura e desconfiada. Esforçava-se ao Maximo para esconder seus medos, e na maior parte do tempo, conseguia. Mas sozinha ou junto das melhores amigas, seus medos eram absurdamente transparentes. E como um bebe sem a mãe, chorava e resmungava inconsolável seus medos e temores. Não havia o que fazer na realidade. O relacionamento evoluiu para o concreto, durante encontros noturnos às escondidas. Ninguém a não ser eles e suas melhores amigas sabiam do que estava acontecendo. E o tórrido caso de amor platônico terminou depois de algumas semanas. Ele partiu como se nada tivesse acontecido, ela ficou perdida e solitária. Entregara-se de coração a um homem, entregara seu coração a um homem. Entregara de primeira toda sua alma e paixão. E ficara sem nada, sem ser lembranças. Ele não lhe prometera nada. Ele não lhe dissera nada. Ela escrevera o dialogo de ambos em sua mente juvenil e apaixonada. Ela escrevera o dialogo errado. E no final o felizes para sempre de outra. Porque pouco tempo depois de parar de se encontrar com ela, ele estava com outra. E ao seu ver, essa outra não o merecia, não era digna dele, não era. Ela e apenas ela, ou alguém melhor, poderia tê-lo. O tempo, amigo sábio, ajudou-a a ver. O tempo de tê-lo, começou, durou e terminou. Com o passar dos dias, seus pesar diminui, e suas angustias silenciaram-se. Talvez ele não gostasse dele, talvez. Decidiu que não escreveria dialogo algum. Não tentaria entender gesto algum. Ignoraria os chamados de seu coração solitário pelo calor, corpo e palavras dele. Seguiria, em frente. E resoluta de sua decisão, seguiu em frente. Ignorou os clamores de seu corpo e coração. Ignorou a revolta de seus sentimentos. Trancou-os fundo em uma caixa de sua mente e seguiu seu caminho. Voltou a ter a confiança e alegria que lhe eram naturais. Voltou a ser quem era, a garota que nunca se apaixona. Coração de pedra, brincavam as amigas. E de repente, não mais que de repente, viu-se transformada em tão coração de pedra quanto antes, e ainda mais. Muito embora seus sentimentos não tivessem partido, estavam apenas adormecidos. Encontrou outros, que por hora ou outra acalentavam seu coração e seus anseios. Nessas horas seus profundos sentimentos reviravam-se no fundo da caixa, prontos para sair. Timidamente ela deixava-os respirar, mas apenas respirar, sem deixar a caixa, sem deixar o escuro. Tinha medo, medo de que acontecesse novamente, medo de não conseguir suportar. Então nunca vivia-os plenamente, apenas pedaços. Mas agora não podia mais ignorá-los. Seus sentimentos eram parte de si, a formavam tanto quanto todo o resto. Negá-los seria como negar parte de si mesma, e machucasse o quanto machucasse, negar-se era algo que não podia admitir. Sempre orgulhara-se de ser quem era e de ser como era. Por isso agora estava ali, parada, tentando entender-se, tentando buscar motivos no passado. Ao mesmo tempo que procurava acalentar as dores, que deveras sentia. A balança rangeu, e o vento secou uma lagrima que escorria pelo rosto alvo. Não percebeu dessa vez, não moveu-se, não assustou-se. A lagrima era apenas a conseqüência da falta de palavras, não podia ou conseguia dizer tudo o que sentia, a lagrima era a expressão pura e sincera de seu sentimento, finalmente acordado. O rangido da balança, era a expressão de sua dor. Estava ali, alto o bastante para ser ouvido por um observador atento, baixo o bastante para passar despercebido pelo mundo. No final, doía, não negaria, mas doía menos do que pensava que doeria. E isso a aquecia por dentro. Sabia que conseguiria superar suas dores e ressentimentos. Um esboço de sorriso sincero surgiu em seus lábios. O primeiro em muito tempo.