Solidão

Uma confissão    Um texto antigo que achei no outro blog, editei e vou postar aqui. Espero que entendam, 

 

Estou sozinha. Não há nada a fazer sobre isso, a cada passo que dou mais sozinha eu fico. Eu não pertenço a lugar algum, não me sinto em casa, não tenho nenhum lugar que chame de lar, local algum me aconchega, não há para onde retornar, porque nunca houve de onde parti. Ao meu redor, a solidão física permeia o espaço. Embora eu não vá a lugar algum sem ninguém, estou sempre só.

Olho a minha volta, e é frustrante perceber que estou só, enquanto todos estão  juntos. A solidão aumenta. Descobrir-se nada para o mundo é algo que causa ânsia. Estou constantemente nauseada e sinto que posso vomitar a qualquer instante, ou chorar, dá no mesmo. Noção de qualquer coisa que seja me escapa pelos dedos. Desaprendi a viver com pessoas porque estou vazia delas. Vejo-as o tempo todo, converso, ouço, toco, mas elas nada significam, são como luz ou vento no espaço, devem estar ali para compor o ambiente, nada mais. Qual a utilidade de qualquer uma delas em minha vida?


A indiferença preenche-me quando as vejo, ouço e sinto. Nada me causam, nada me acrescentam, continuo inutilmente igual a antes.


Sinto-me cada vez mais irrelevante ao mundo, cada vez mais inútil e desproposital. Penso e falo, olho e sinto, cheiro e ouço, sem que significado algum se faça para mim. O mundo gira, o mundo para, o mundo volta. As pessoas continuam as mesmas de sempre. Todas são as mesmas horríveis e mesquinhas de antes. Todas ainda sorriem quando me vêem passar. No fundo sei que é enrolação, posso sentir o ódio dirigido a mim, no ambiente, no meio das frases, entre os olhares. Lufadas de um ódio primitivo rondam o ambiente a minha procura. Não posso, contudo gritar-lhes para que parem, eles não o dizem.
Continuo caminhando, a cada passo mais sozinha, mais distante. É um caminho sem volta, com uma passagem só de ida, Passargada me espera ao final da linha de metro, de lá pego um trem direto até o castelo do rei, meu amigo. A sensação de náusea não me deixa dormir, descansar, sonhar. O pensamento latejante grita-me que não presto, é insistente o bastante para manter-me sempre atenta e alerta. O cansaço vem, os dias sucedem-se, e no final nada mudou, nada nunca muda.


As pessoas ainda lutam para serem as melhores, sem se importar realmente com as outras. Todos sempre têm dentro de si um egoísmo negro e um narcisismo vermelho, que mascaram com sorrisos brancos em um mundo cor-de-rosa. O mundo fede, as pessoas fedem, a tudo. Desde inveja inescrupulosa, ao exarcebado consumismo e o capitalismo, que não passam de desculpas para que as pessoas possam tomar o querem sem se sentirem culpadas.


Tudo ruí a nossa volta, e ninguém vê ou se importa, porque todos estão conseguindo o que querem, e os que não conseguem, mal tem força para erguer-se e dizer, e mesmo que dissessem, ninguém os entenderia ou pararia para ouvir.


O mundo é uma merda. E as pessoas são uma merda. A vida é uma merda. E ainda sim estou aqui viva, agarrada com todas as forças a uma vida que não me faz bem, a uma vida que apenas me mostra desespero e impotência.


Estou viva dentro de um mundo que temo em deixar. Temo o dia que não abrir os olhos para ver o céu cinza e as nuvens negras, o sol escaldante e as pessoas nojentas e ignorantes. Temo o dia que não poderei correr por dentre os carros fumarentos e barulhentos, entrar em uma sala mal conservada e olhar para as caras feias de pessoas desconhecidas.


Sou uma louca sem noção. Quando olho para mim, vejo que nada tenho, nada tive. A solidão que me acompanha, irá deixar-me, quem sabe, no dia de minha morte. Nasci sozinha em uma quarta-feira fria. Vivi sozinha em um mundo gelado. Escondi-me no escuro, e olhei a viva através da fechadura de uma janela.


Restam-me as letras deixadas, as entrelinhas lidas, o entendimentos dos livros, pois sou tão grande quanto as páginas dos livros que vivo, e tão real quanto as letras que escrevo.
Sou uma louca por viver.
Sou uma louca por continuar vivendo.
Sou uma louca por querer viver.
Sou uma louca.
Vivo.
Vivendo.
Só.

Como ser nerd em 10 passos

Agora que ser nerd está na moda, e você como toda pessoa descolada e legal segue a moda. Você quer virar nerd também, mas está com dúvidas e não tem muita certeza do que fazer, bom, eu vou te ajudar.

1. Encontre um vicio nerd e aprofunde-se nele. Pode ser qualquer coisa, livros, quadrinhos, filmes, música, jogos, tecnologia, física, química, astronomia… não precisa ser apenas um, podem ser vários. Essa etapa dura cerca de 5 anos. + 30 de nerd

2. Se ambiente com a cultura nerd. Seu vicio nerd pode ser qualquer um, mas você deve conhecer o básico de toda a cultura nerd, os principais livros, filmes, jogos, assuntos. Essa etapa dura cerca de 2 anos. + 20 de nerd

3. Entre em foruns/salas de discussão online. Discutir, conversar e compartilhar informações e conhecimentos sobre sua nerdisse favorita é sempre necessario. Esse etapa não tem fim. + 7 de nerd

4. Gaste a maior parte do seu dinheiro comprando coisas nerds. Livros, quadrinhos, tecnologia… Não importa. + 5 de nerd

5. Passe dois ou três dias se dedicando inteiramente ao seu vicio. Todo nerd já fez isso alguma vez na vida, passou dois dias lendo o último livro de sua série de sci-fi favorita ou então não saiu da frente do videogame até zera-lo. Essa etapa dura dois ou três dias. + 5 de nerd

6. Adquira habitos nerds. Sites sobre o assunto, revistas, livros, redes sociais, mantenha-se sempre informado sobre o mundo nerd, além de jogar, reler e rever seus livros/quadrinhos/filmes/jogos favoritos. + 5 de nerd

7. Tenha pelo menos uma ideia louca o-mundo-seria-melhor-se-eles-fizessem-isso-do-meu-jeito ou algo do tipo. Ideias como se-eu-fizesse-isso-poderia-dominar-o-mundo ou eu-sou-um-gênio-e-vou-ser-famoso-fazendo-isso também são validas. Nada mais natural que um nerd queira ser como seus idolos, que nerd nunca quis ser/ter a vida do Steve Jobs, Neil Gaiman, Saramago, Kubrick ou tantos outros ? + 10 de nerd

8. Após tanto tempo em frente ao computador, televisão e lendo sob péssimas condições você tem/desenvolveu algum problema de vista. Compre óculos, não necessariamente você vai usar, mas sempre é bom te-los para alguma emergência. + 3 de nerd

9.Tenha em seu guarda roupa qualquer coisa que remeta a cultura nerd. Pode ser desde uma camiseta dos Beatles até uma capa do Gandald. + 10 de nerd

10. Vá pelo menos um vez em um feira/convenção/encontro/exposição sobre um assunto nerd. + 5 de nerd

LEVEL UP!
Parabéns, você agora é um nerd.

Peripécias da vida

Nada de contos, nada de reflexões sobre os acontecimentos do mundo, nada sobre a minha rotina ou nenhuma resenha de livro. Hoje vou falar sobre mim, sobre a minha vida, e sobre coisas que vocês não, provavelmente, não sabem.

Eu estou doente. São doenças tratáveis, embora o tratamento seja longo e as vezes doloroso. Não é nada que em seis ou oito meses eu já não esteja completamente curada e bem. Para todos os efeitos, o que eu tenho é um parasita no duodeno (canal que sai do estômago) que está causando uma duodenite, uma bactéria no estômago causando uma gastrite e isso tudo causando refluxo. São alguns antibióticos e alguns outros remédios, que as vezes me dão algumas reações adversas. Fora isso, estou gripada, é um gripe que vai e volta nos últimos 7 meses mais intensamente, mas que começou no ano passado. Isso quando não tenho algum outra infecção de garganta, febre ou minha rinite não ataca.

Você deve estar se perguntando porque eu estou falando tudo isso, reclamando um monte da minha vida. Na verdade, não estou reclamando, estou contando o que acontece comigo desde o começo do ano (quando a gastrite apareceu e a gripe piorou), só isso, só constatando. Eu sempre tive uma saúde muito boa, a ponto de quase nunca ter sequer uma gripe, então foi uma surpresa tanto para mim, quanto para meus pais, quando comecei a ficar doente.

Tudo poderia parecer sem explicação, sem sentindo, mas isso porque não estou contando tudo. Desde setembro do ano passado eu estou fazendo psicanalise. Ninguém é tão bem resolvido, ou se conheço tão bem que não ganhe fazendo análise. Ao mesmo tempo que me faz tão bem, pois descubro coisas sobre mim que eu não imaginava ou não queria imaginar, me deixa mal. Me deixa mal porque tanto eu, quanto a psicanlista acreditamos que minhas doenças tem causas psicológicas e não biológicas.

Eu explico, acredita-se que algumas pessoas, quando não estão bem emocionalmente ou psicologicamente, não tem reflexos psicológicos mas biológicos. Quer dizer que a pessoa em vez de ser depressiva acaba tendo gastrite, ou alguma outra doença. Então basicamente toda vez que eu deveria estar me acabando em lágrimas ou algo do tipo, em vez disso eu fico fisicamente doente, e geralmente isso sse manifesta em forma de gripe.

Novamente, porque eu estou falando tudo isso? Ontem, eu tive uma séria conversa com a minha mãe. E mais uma vez eu não consegui explicar ou dizer o que se passa comigo. Meus pais tem sérias dificuldades de entender tudo que acontece comigo, o modo como eu sinto, vejo e faço as coisas. Talvez eu tenha dito, e ela não tenha entendido, não sei. Sei que eu e eles somos diferentes, muito diferentes, e isso é palco de grandes discussões, como a de ontem, onde no final eu me sinto frustrada porque sinto que não consegui dizer diretamente o que se passa e minha mãe não conseguiu entender o que eu estava querendo dizer.

O resultado dessa discussão foi uma manhã de dor de cabeça, uma tarde de tontura, final de tarde com vômitos e estômago ruim, e uma noite no hospital. Chegamos as 20h saímos as 23h30.

Bárbara Bigon, pode se sentar. Dor de cabeça, tontura, gripe, vômitos, estomago ruim. Sentar na cama, descer da maca. Diagnostico do médico, crise de labirintite e crise de gastrite. Receitas e um atestado. Entrega guia pra enfermeira e espera. Os ponteiros do relógio parecem parados. Senta tira metade do casaco. Agulha, algodão, mil preparações. Remédio na veia. Enfermeira está doendo, é normal? É normal, pode ficar tranquila. Dor e tédio. A hora parece não passar. Sala enche e se esvaia. Mãe são 23h30, não aguento mais sentir dor. Calma, vai passar está acabando. Mãe pede pra tirar. Olhos cheios de lágrimas, congelando na sala fria sentindo dor. Enfermeira volta, tudo bem querida pode ir. Chegar em casa é sempre um alivio. Pai, irmão vendo futebol. Subo pro quarto, pijama, escova os dentes, cama.

Pela primeira vez na vida tomei remédio na veia. Senti um monte de coisas estranhas. Mas percebi que certas coisas só fazem sentindo quando se as conhece melhor, mais profundamente. Só quando analisamos melhor uma situação é que entendemos acontecimentos que a primeira vista são ilogicos. Está tudo ligado, e nada é por acaso, é tudo uma questão de se olhar melhor e mais profundamente.

No final, a verdadeira questão é : quanto você é capaz de aprofundar o seu olhar?

Observações cotidianas

Todos os dias, sem falta, ele chega e senta-se a mesma mesa. Um ritual repetido religiosamente, seguindo uma ordem certa. Primeiro os óculos sobre a mesa, seguido pelo lento caminhar até a geladeira, apanha uma das latinhas de cerveja e volta para a mesa, onde um copo já o espera. Ele deve ter entre 60 e 70 anos, não sei ao certo, poderia ter 80 e ainda sim eu não teria certeza.
Entre 11h e 12h todos os dias, ele está lá, sentado na mesma mesa, bebendo sua cerveja, com o olhar perdido de quem tem muitas perguntas e algumas tragédias. A cada gole, seu olhar vaga pela padaria, geralmente vazia a aquela hora, sem se demorar em ninguém. Me pergunto por quais tragédias esse senhor teria passado, que momentos tristes teria vivido, para ao final, se postar de forma tão melancólica?
Vejo nele, uma infinidade de perguntas, de meias respostas, de anseios, é quase como se durante toda sua vida nunca tivesse parado para olhar em volta, e agora ao final, esse senhor tenta, responder e entender toda sua vida. Talvez tivesse perdido sua mulher, quem sabe um filho, ou então fosse sozinho, e agora ao final se dá conta de que todo sua vida já passou. Como se somente agora percebesse que sua vida passou e aconteceu, e se dá conta de todas as palavras que não disse, de todas as coisas que não fez, de todas as perguntas que não criou, de todas as respostas que não procurou, e notasse ainda, que não há mais tempo para nada, pois lhe restam pouco anos, talvez meses de uma vida vivida pela metade.
Penso nas histórias que ele poderia me contar, de sua infância longínqua, uma juventude esfuziante, um casamento arrebatado, alguns anos difíceis outros de bonança, criar os filhos, prosperar, crises, ditadura, liberdades, brigas com o pai, fugas. Imagino tantas histórias, tanta vida por atrás daqueles olhos tristes. Quem sabe até um grande amor, uma tristeza profunda, ou será um amor perdido? Tantas possibilidades por de trás dos olhos calados, que nunca fixam alguém e parecem ver apenas um passado perdido, uma vaga lembrança.
Eu posso estar completamente enganada, e o olhar melancólico e bago seja apenas devido ao excesso de álcool para um corpo gasto. Talvez não tenham respostas ou perguntas suspensas, não existam grandes tragédias ou um profundo sofrimento, talvez sequer exista um pensamento. Pode ser que seja apenas um velho bêbado enchendo a cara na padaria da esquina no meio do dia e não haja nenhuma história a ser contada.
Jamais saberei enfim, pois apesar de vê-lo todos os dias, sentado sozinho em sua mesa, olhando ao longe pelas grades da janela, jamais perguntei-lhe nada, sequer o nome. Nunca tive coragem de interromper seus pensamentos, tristezas ou bebedeira. Fico então com as histórias que criei para ele, os pensamentos que lhe supus, as verdades que lhe inventei, a bebedeira e vazio que coloquei em sua vida. Minha curiosidade de saber a verdade sempre se perde em meio aos pensamentos, talvez seja melhor ter apenas a ideia.