Dúvidas de amor

Olhou no fundo dos olhos dele, tentando entender, tentando adivinhar o que se passava dentro da mente e do coração daqueles olhos claros. Não via nada alem de si mesma refletida, talvez porque fosse isso que ele queria, ela. Era uma sensação nova, estranha, boa, e alem de tudo isso completamente aterrorizante.

Desviou o olhar e encarou o teto, não sabia como dizer para ele, pois no fundo, não sabia nem o que dizer ou o que estava sentindo. Dentro de si temia mais que tudo querer, mas não sabia como explicar, afinal, quão difícil pode ser simplesmente querer algo, ou alguém?! A verdade é que tinha tanto medo de perder, que temia inclusive o querer.

Suspirou e abraçou-o forte, os lençóis de star trek espalhados pela cama, um filme mudo passando na tv, a música favorita dele tocando baixinho, os controles do videogame dele acumulando-se em um canto, o violão atrás da cama, as pequenas coisas que ao longo do tempo foram-se tornando familiares, assim como estar em casa.

Ele abraçou-a de volta e começou a sussurrar a música em seu ouvido, uma mania adquirida com o tempo, quando ele finalmente perdeu a vergonha de cantar perto dela. Pensando bem, eles tinham muitas pequenas manias, que como as coisas dele, se acumulavam ao redor. Não queria perder aquilo, o sorriso infantil e alegre, o olhar sempre calmo, o abraço reconfortante, o cheiro familiar, tudo nele lembrava a ela estar bem, estar em casa.

O tempo se encarregou de sua insegurança natural, afastando-a cada vez mais, embora ainda sim tivesse medo. Ele parecia sempre tão certo e seguro de si, tão confiante de quem era, ou talvez fosse apenas que ela era completa incerta, completamente insegura e completamente indecisa. Talvez fosse por isso que o pensamento de partir lhe fosse tão atraente, partir agora será difícil, mas depois será ainda pior, quanto mais tempo passa, pior será o depois.

O futuro a assombrava e a atormentava, como a um fantasma, sabia que ia acabar, tudo na vida está fadado a acabar, e exatamente por isso, temia tanto. Poderia durar um ano, uma década ou um século, quem sabe, uma hora iria acabar, por doença, morte ou apenas desgaste. E então o que sobraria, um ou dois corações partidos e quem sabe o que mais.

Pela primeira vez na vida sentiu-se completamente covarde, covarde de amar, com medo do depois e com pavor de sofrer. Odiava admitir, mas de todas as coisas ruins pelas quais passara, aquela situação entrava em sua lista de cinco piores.

1 – a morte do avô

2 – a morte de seus cachorros

3 – o termino com o primeiro namorado

4 – a grande briga com a melhor amiga de infância

5 – perdê-lo

 

Estava perdida, com medo, tremendo e sem coragem de contar. Temia perdê-lo, temia querê-lo, temia tudo que envolve-se ele. A única coisa que não fazia ter medo era estar com ele. Ironicamente seu remédio era também sua tormenta. O coração batia pesado em seu peito com a tristeza que carregava. Porque era tão difícil? Amá-lo era uma das coisas mais simples e fáceis que havia encontrado em sua vida, porque todo o resto era tão complicado? Porque não conseguia simplesmente amá-lo? Porque tinha que complicar tudo e tornar sua própria vida mais difícil? Porque tinha tanto medo de perdê-lo? Era isso amar de verdade? Porque era tão difícil acreditar que ele a amava tanto quanto ela o amava? Porque ela teve que encontrá-lo? Porque ele tinha que ser tão certo para ela?

Perdida em seus medos, pensamentos e aflições, ela não havia percebido que ele estava abraçando-o forte contra o peito dele, pelo menos não até que ele beijou-a com carinho sua testa e ergue-se seu queixo obrigando-a a olhá-lo nos olhos. E antes que percebesse estava chorando inconsolavelmente contando para ele tudo que se passava em sua mente e seu coração, e ele com a calma e paciência de sempre abraçava-a firmemente, acarinhando-a e acalmando-a, até que por fim quando terminou de falar, ele lhe sorriu como sempre sorria, infantil e alegre, beijou-lhe carinhosamente e sussurrou contra seus lábios “Te amo” fazendo com que os medos e os fantasmas que assombravam seu coração se dissipassem e ela adormeceu calma e tranquila em seus braços, sabendo que mesmo que o perdesse, tê-lo seria com certeza uma das cinco melhores coisas de sua vida.

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