Um a Um

esses dias ajudei meu irmão mais novo a fazer uma redação para o colégio (ele está no terceiro colegial)   bom isso foi o que saiu dessa junção, eu gostei bastante, espero que gostem. 

Quando nada mais importa, descobrimos o valor que damos a cada coisa, o sentido exato daquela caixa de música ou da lembrança mais remota da infância, que teima em voltar cada vez mais nítida. O som dos passos dele ecoando pela casa vazia, vindo me encontrar, era tudo o que eu queria ouvir, e tudo o que eu não ouviria. Entrei pela porta e coloquei a bolsa na mesa da cozinha, atirei as contas em um canto e olhei ao redor, mas nada no ambiente sugeria que algum dia ele esteve por perto. De uma pilha retirei um CD, o favorito dele, e coloquei para tocar enquanto me sentava para olhar as contas.

O meu nome impresso, o nome de solteira, era a maior evidencia da sua partida. Ver impresso ali apenas Amada Orlan, sem o Silveira em seguida, me trazia mais tristeza e arrependimento do que eu poderia imaginar. A presença dele sempre fora tão certa em minha vida, primeiro como vizinho, depois como colega de sala, depois como amigo, depois como namorado, noivo e enfim marido… Os seis meses desde que ele se fora ainda não tinham sido o suficiente para curar a falta que ele fazia.

Levantei da cadeira, fiz para mim um jantar frio e solitário, um lanche natural vegetariano, uma das muitas coisas em mim que ele nunca aceitara.  Sentei no sofá da sala, acariciei entre as orelhas de Leia, minha gata siamesa, peguei um filme da pilha (os filmes favoritos dele, que com o tempo haviam se tornado meus filmes favoritos), Star Wars – Guerra dos Clones, e comecei a assistir sem realmente prestar atenção. Minha mente de volta aos primeiros anos de nosso convívio.

Lembro-me claramente da primeira vez que o tinha visto. Com uma capa negra esvoaçando atrás de si enquanto brandia um sabre de luz vermelho (na época eu não sabia que era um sabre de luz, chamei de espada vermelha, coisa que o irritou muito) com seu cachorro correndo atrás. Havia acabado de me mudar para aquela rua, na época eu tinha 5 ou 6 anos, e eu ri vendo aquela cena do garotinho correndo com seu cachorro. Me aproximei para me apresentar, mas ele não viu, somos então eu, ele e o cachorro parar no chão, todos embolados e ralados.

Pequenas lágrimas escorriam-me dos olhos, enquanto lembranças saltavam na mente. O celular tocou, interrompendo meu filme e minhas memórias. Meu editor-chefe ligando da redação exigindo que no dia seguinte eu chegasse mais cedo pois teríamos que cobrir um evento via twitter que aconteceria em Beijin na China. Desliguei o celular, sentindo-se previamente exausta, voltei para o sofá e larguei-me, sem forças.

A mãe de Anakin Skywalker morria em seus braços quando voltei a ver o filme. Sem forças para agüentar, chorei. Chorei pela falta que me fazia, pela tristeza de ter sido deixada, pela confusão de não entender, pela perda de Anakin, pela minha perda. Chorei até não ter mais lágrimas para chorar, até não ter mais forças para chorar. As lembranças dele na minha vida não paravam de aflorar em minha mente. O primeiro beijo, as brincadeiras quando crianças, os amigos, a primeira bebedeira juntos, voltar para casa com o sol nascendo e a vergonha estampada em minhas faces. Quando o conhecera mudara completamente por ele, deixei minhas barbies e bonecas para trás e me aventurei no mundo dele cheio de robôs, dragões e herois, e apaixonei-me por aquele mundo tão perdidamente quanto me apaixonei por ele.

Agora sem ele ali, apenas com as lembranças e memórias e a si mesma para lembrar da passagem dele por sua vida… era terrível demais continuar, era pesado demais. Por trinta anos norteou sua vida nele, crescera e mudara com e por ele. Sem ele, sentia-se vazia e oprimida pelo mundo que esperava que ela continuasse sem ele. Não queria continuar sem ele, não queria superá-lo. E não iria…

Voltou para a cozinha, abriu o frízer e tirou a garrafa de vodka, quase intocada, no armário do lado achou a outra coisa de que precisava, os remédios para dormir que às vezes precisava tomar graças a minha estressante profissão. O vidro estava no final, apenas treze comprimidos, mas não precisaria de todos eles, apenas sete bastariam. Sentei-me na sala, engoli os comprimidos, empurrados garganta abaixo com a ajuda da vodka barata. Um a um eles desceram por minha garganta. Um a um eles ajudaram a acabar com a minha dor. Um a um eles fizeram com que eu não tivesse que continuar sem ele. Pois não tive que continuar.

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