Voiceless

Preso na garganta ou perdido no meio da cabeça. Alguma coisa se perdeu para talvez não voltar, era algo pequeno e tão essencial, um grão de areia de diamante. Infelizmente as coisas pequenas nem sempre se presta atenção, e talvez por isso se perdem, e tão difícil quanto manter algo pequeno é encontrá-lo depois de perdido.

Entrei em um mundo de sonhos leve e voando, sai dele arrastada e miserável. O dia se passa, pesado, pesaroso, penoso. O equilíbrio da balança se quebrou, e a ampulheta não funciona mais. Presa nas garras de um dragão, debatendo-me, um sonho ruim que não acaba é geralmente chamado de realidade. Esqueço passado, presente e futuro, quando se sofre o instante dura demais para que se perceba a passagem do tempo.

Olhos tristes me encaram de cima, tentando então o negrume que absorve meu coração. Uma trinca de luz para cada imensidão de escuro. Infelizmente apenas quem sofre entende sofrimento, e não é algo que se explica, mas algo que se entende. A melancolia é própria daqueles que a sentem, como a nostalgia, e mesmo a saudade.

Uma ex-viciada em felicidade com crise de abstinência. Levo a tristeza como uma desculpa pertinente, embora saiba que desculpa nenhuma é desculpa para a apatia. A falta de resolução, a duvida me consomem, queria saber que há a possibilidade da alegria, como há a verdade de ser triste, mesmo que só por um lado. Valsando sozinha em meio a uma multidão, despercebida até pela ignorância, a música que me guia segue apenas em minha mente descontrolada. O mundo deixou a muito de fazer qualquer tipo de sentido. Em um planeta de loucos eu sigo solitária, cantando a canção que aprendi e fiz sozinha.

As palavras que declamo formam o clamor de meu peito, o brado que reverbera em mim e me transforma. Aos poucos a tristeza me deixa, chorar nunca aliviou minha alma como escrever. As palavras, não os olhos, são a janela e a cor da alma, pelo menos da minha. Escrevo porque sou, escrevo porque sinto, escrevo porque vivo. A razão e a noção de estar aqui, resumem-se a isso, faço apenas e somente aquilo que sei. Derramo pelos papeis expostos a única coisa que tenho de verdadeiro em mim, as poucas palavras que vivi, nesses meus muitos poucos anos de vida. Quem mede o tempo? Quem sabe quanto se passa em um segundo ou o quanto se cresce em meia hora?

Exorcizei meus demônios em uma página em branco, vivi, cresci e morri em um instante, um fulgor apaixonado de amor e ódio. Nada mais é na vida ou na morte que procurar aquela pequena coisa tão importante que molda e solidifica a alma, passar toda minha existência buscando enfim, a pequena e tão importante parte que me falta, aquela que me fará ser completa, una e eu mesma.

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