O que é amar

Ele sorriu e segurou sua mão. Os olhos brilhando de felicidade, puxou-a para perto e suavemente encostou seus lábios na testa dela, em um beijo carinho. “Você está maravilhosa” ele sussurrou levemente contra a testa dela. Afastando-se segurou em sua mão direita e a fez girar, o vestido rodado flutuando ao seu redor, seu riso natural preenchendo o espaço, os lábios e os olhos sorrindo em conjunto. Ele a abraçou forte e não disse mais nada, ela deitou a cabeça em seu ombro e segurou-o com carinho.

A brisa da tarde passava por eles, agitando os cabelos e as roupas, deixando flores e folhas pelo caminho, mas eles pareciam não se importar. Dançavam uma música que era tocada apenas para os dois, um ritmo único que apenas eles conheciam. O sol se foi, a noite começou, as luzes da rua começaram a acender uma a uma. O tempo parado, o mundo e todo o resto poderia ficar para depois. Todos os dias tinham responsabilidades e coisas para fazer, trabalho, faculdade, curso, naquele instante nada daquilo importaria. Um instante era tudo o que precisavam, tudo o que precisavam para passar todo o tempo depois.

O amor é breve, silencioso, calmo, agitado, barulhento, finitamente eterno. Quando é amor, sente-se, sabe-se, e palavras e atos deixam de ser necessárias.

Professores

Faz um tempo já, que eu estou com esse assunto na cabeça, e hoje durante uma longa conversa com um amigo, esse texto se fez necessário.

 

 

Professor é aquela pessoa que depois dos pais, guardiões, avós e avôs, se torna o primeiro adulto com quem temos contato direto. Eles e elas te ensinam a ler, escrever, a dar os primeiros passos ao conhecimento. Então você cresce, as matérias aumentam e as dificuldades também. Você começa a descobrir coisas que gosta e que é bom, e coisas que não gosta. Eu tive professores e professoras que formaram meu caráter, que me apaixonaram pela história, literatura, gramática, química, e durante algum tempo, até mesmo a matemática.  Sempre gostei da escola, de estudar, de ler, e sempre me interessei por aprender, entendo que algumas pessoas pensem que isso é raro.

 

Mas a verdade é que todos gostam de aprender sobre o que gostam e entendem, o trabalho de um bom professor é fazer o aluno se apaixonar pela aula, pela matéria. É orientar o aluno, conversar com ele, discutir de igual para igual. Professores, são mais velhos e experientes, mas isso não quer dizer que são os mais inteligentes. Se fosse assim todo idoso seria um gênio e toda criança retardada, e não teríamos gênios de 9, 10, 15, 17 anos. O importante é que não há regras, não há o mais inteligente nem o mais capaz. Conhecimento é para ser dividido, compartilhado, junto, não dá pra compartilhar separado. Não tem que existir competição na sala de aula, professor contra os alunos, ou os alunos contra o professor.

 

Se cada um dividisse o que tem, todos teriam um pouco a mais de conhecimento. Novas mentes tem novas ideias e novas perspectivas, mentes mais velhas tem mais experiência e mais sabedoria, une-se tudo e tem-se muito mais de cada coisa. Professores devem respeitar os alunos, assim como os alunos devem respeitar o professor. É uma eterna via de mão dupla que deve ser cativada dos dois lados, para que ao final todos saiam ganhando, e não perdendo.

 

Já vi professores tratarem os alunos como idiotas e burros, e isso faz perder a confiança e o respeito, o contrario também é verdadeiro.  Professores deveriam orientar, ajudar, ensinar, levar ao aluno ao conhecimento, respeitando sempre o conhecimento que o aluno já tem, suas ideias, ideais, visões de mundo. Alunos deveriam ouvir os professores, prestar atenção em sua experiência, e acrescentar ao que já sabe. O debate aberto, a critica construtiva, tudo colabora ao aprendizado, não podem haver as barreiras  do orgulho e medo, pois isso apenas prejudicam o aprendizado.

 

Nem todos os alunos vão se apaixonar pela matéria, mas se a professora / professor fizer um aluno se apaixonar, se interessar e realmente auxiliar esse aluno, eles podem estar criando o próximo grande alguma coisa.

Perdas

Era mais do que podia suportar, e por isso sorriu. Se fizesse ou tentasse fazer qualquer outra coisa desmoronaria e se partiria em pedaços ali mesmo. Não suportava olhar, não suportava ficar ali, e ainda assim se forçava, não saberia nem por um instante dizer o porque.

A multidão vestida de preto cochichava e flutuava de um lado para outro, quase como uma dança, um movimento hipnótico. Ela não conseguia ser direito, tudo parecia um borrão, entendimento e compreensão eram coisas muito distantes naquele momento, mesmo a assimilação de coisas pequenas era absurdamente complicado.

Olhou para dentro da sala novamente, os dois caixões postos um ao lado do outro. A dança do salão ainda acontecia, uns entravam, uns saíam, uns paravam para conversar, reencontravam parentes distantes e velhos amigos da escola.

Ela sentia-se ultrajada com a falta de respeito, como as pessoas podiam conversar e rir? Como poderiam se abraçar e agir como se tudo estivesse igual? O mundo dela tinha acabo de ruir para sempre, e aquelas pessoas nem se davam conta. Era humilhante demais, mas ela não iria se deixar abalar, não ali, não agora, depois, tudo depois. Depois o tempo curaria seu coração, depois ela choraria, depois ela sofreria, depois ela se quebraria em mil pedaços pequenos, não ali, não agora.

O mar de gente continua a flutuar ao seu redor, mal ouvia as condolências sussurradas ou os pedidos sem jeito, seu corpo poderia até estar ali, sua mente vaga enlouquecida em outro lugar, um lugar só dela. Cresceu solitária, e solitária foi por toda a vida, e agora pela primeira vez estava além de solitária, sozinha, carregava dentro de si uma solidão mais ainda, um isolamento sem fim do resto do mundo que a protegia de romper-se.

Fechou a mão em cima do colar que vazia pertencido a mãe, e a avó antes dela e a mãe dela antes dela, e assim há muitas gerações. Tentou pensar em algum lugar feliz, algum lugar que apenas tivesse boas lembranças, algum lugar para aliviar um pouco da dor. Não achou nenhum.

Havia apenas um lugar, um lugar que era só seu, sua mente, sua imaginação, seu templo pessoal de criatividade, o único lugar que poderia fugir e estar bem. As pessoas passavam por ela, mas ela não via, não ouvia, nem sentia. Eles não poderiam entender o que tinha acontecido, ela duvidava que alguém já tivesse tido todo o seu mundo tirado de si. Não havia restado nada, nem cinzas, nem pó, nem mesmo os destroços, apenas dois caixões vazios. Estava além da perda o que ela tinha sofrido, além do simples não ter por perto.

Disseram para ela que a vida continua, as coisas melhoram e tudo passa, mas será que passa realmente? Seria possível depois que todo o seu mundo havia sido tirado de si, seria possível continuar? Não era apenas um pedaço da vida dela que tinha sido levado desse mundo, mas toda a vida dela. O único problema é que ela ainda estava viva, ainda estava ali, e agora está sozinha, sem nada.