Partindo

Ela sorriu, mas não era um sorriso leve, ela sorriu um sorriso pesado, impossível de prosseguir, durou apenas alguns segundos, mas ainda assim era um sorriso. O primeiro em meses. A tosse interrompeu o pequeno e pesado sorriso, a tosse sempre interrompia tudo. Cada frase, cada palavra, cada suspiro. 

Com igual dificuldade ela ergueu a mão em direção a irmã, que trazia pesadas lágrimas nos olhos, esta segurou a pequena e pálida mão entre as suas e sorriu um sorriso triste. O mesmo sorriso que sorria a meses. A irmã sentou-se na beira da cama, com a mão da irmã bem segura entre as suas e entre sussurros elas conversaram. As pausas eram grandes e dolorosas, a voz da pequena era apenas um fio, uma brise de outono em meio a uma grande tempestade de inverno. 

A garota na cama, a mais velha das irmãs, estava pálida, frágil e quebradiça, os médicos não encontravam solução para a doença dela, nem mesmo uma doença para culpa. Não que isso preocupasse a pequena, ela balançava levemente a cabeça e sorria. Ela sabia que sua doença era uma doença do coração. 

Estava triste, com saudade, chateada, seus sentimentos eram tão grandes e intensos que seu pequeno corpo não resistia e sucumbia ao peso deles. Ela lutava todos os dias por um sorriso, uma risada, qualquer coisa que a fizesse se sentir bem, feliz novamente. Mas o mundo parecia morto a seus olhos, nada brilhava, nada tinha cores, ela vivia em um imenso mundo preto, branco e mudo.

Os dias passariam iguais se não fosse por sua tosse que piorava, ela não comia, não dormia, passava os dias deitada ou vagando pela casa, e a única coisa que a seguia era sua tosse, incessante, drenando a cada inspiração um pouco mais da saúde da garota, até que não restou mais nada.

Deitada na cama, completamente vazia de vida, era apenas um corpo que sobrevivia dia a dia. Sua irmã segurava firmemente sua mão, na esperança que um pouco da antiga vida voltasse aos olhos dela. Sem nunca deixar seu lado, a irmã ficou, a cada noite de tormenta e a cada dia de pesadelo, até que toda a tristeza fosse embora, até que a felicidade voltasse, até que a vida se instalá-se novamente naquele olhos que tanto amava.

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Menino e seu pai

Eles eram felizes juntos e ficaram ainda mais felizes com a grande descoberta, seriam três e não mais dois. Veio o primeiro chute, o primeiro banho, a primeira palavra, e tantas outras primeiras vezes que eles mal conseguiam contar. O tempo passou, e o pequeno cresceu, e com o tempo cresceu também a vida deles, a responsabilidades, o trabalho, as contas, a pressa, a pressão, a falta de tempo.

Logo, com o tempo, o pequeno corria para receber o pai, feliz por reencontrá-lo depois do dia separados, mas como todos os dias, o pai, depois de um sorriso cansado e um cafuné nos cabelos do pequeno desculpou-se “Tinha trabalho a fazer”. Todos os dias a mesma epopeia se repetia e sozinho o pequeno ia, brincar solitário com os brinquedos que não respondiam, não contavam histórias, não faziam carinho, não beijavam, não abraçavam e só estavam ali.

Os dias se tornaram meses, e os meses se tornaram anos, e a noite ao dormir o pequeno, que agora estava grande, abraçava e beijava o pequeno ursinho com quem havia brincado durante toda a sua infância. E nos corredores da mesma casa, via passar aquele estranho parecido com ele próprio. Eles diziam “Olá” e “Bom dia”, mas no fundo não sabia dizer quem eram, ou o que faziam, ou o que queriam, ou com o que sonhavam.  Mesmo o cachorro, aquele ser esquisito que não falava sequer a mesma língua que ele, era mais próximo do coração do menino.

Em um desses dias de idas e vindas pelo corredor da casa, o velho pai parou e encarou os olhos do estranho que havia criado e segurou seu rosto, aquele que tinha os mesmo olhos que ele, a mesma cor do cabelo e formato do rosto, um reflexo perfeito de quem havia sido. E ao olhar bem para os olhos daquele homem, percebeu que não conhecia a mente e o coração por trás, não sabia quais eram os sonhos e desejos, não conhecia as aspirações, medos, vontades nem mesmo se lembrava do som da risada dele.

Por um segundo suspenso, o pequeno agora um homem, esperou ansioso pelo momento no qual o pai iria convidá-lo para algo, qualquer coisa que seja, iria abrir um sorriso e conversar com ele. Mas o segundo passara e com ele o momento, o velho balançou os cabelos, soltou as mãos do rosto de seu espelho passado e continuou seu caminho pelo corredor. O jovem homem acompanhou com os olhos enquanto o outro mais velhos descia corredor abaixo. Ele era seu herói, seu ídolo e um estranho.

“O tempo só nos dá uma única chance para viver, não há voltas, não há refazer, não há apagar e fazer de novo. Aproveite bem a sua chance, antes que acabe o seu tempo. Nossas vidas são aquilo que fazemos dela.”