Confusão

Sentia uma aperto, um puxão, uma sensação que só podia ser explicada por um buraco negro sendo aberto dentro do seu estomago. Esperava na fila ansiosa, angustiada. Hoje completavam dez anos, dez longos anos de esperas e recusas, de esforço e tentativas frustradas. Suas mãos tremiam e seus pés haviam desaprendido a parar quietos. Seu estomago não existia mais naquela dimensão, disso ela tinha certeza, já fazia sido sugado para onde quer que seja que aquele buraco negro levava.

Chegou sua vez antes que estivesse pronta. Os olhos naturalmente míopes estavam com dificuldade de ver, mesmo com os óculos. Demorou um segundo para firmar a visão, e então estava lá o seu nome. Na quinta linha, uma linha alta, um papel. Não era o papel que queria, mas era muito mais que ficar no coral.

Por um longo momento ficou incerta do que fazer. Achava que deveria ficar feliz, mas seu estomago insistia em querer ficar ansioso. Poderia chorar, rir, desmaiar ou vomitar naquele instante. Todas parecidas respostas aceitáveis. Mas como sempre, afastou-se sem dizer nada, controlando as mãos e os pés para que voltassem a obedece-la. Ouvia seu nome sendo chamado, ouvia pessoas, mas não conseguia registrar nada. Tudo parecia tão longe que era como se nem existissem. Só via aquela linha, singela, simples, preto no branco. E seu nome na frente.

O mundo a sua volta dissolveu-se, e apenas aquele papel, aquele personagem aparecia em sua frente. Uma palavra tão pequena, tão simples, tão aterrorizante que mudava tudo. Mãe. Repetia-a em sua mente, desacreditando na verdade. Seria mãe no papel e fora dele. Mas não queria, não era mãe ainda, não deveria ser mãe ainda.

Não acreditava em si o bastante para ter o amor e a confiança que são naturais as mães. Seus pés não estavam firmes o bastante no chão para ser segurar e apoiar completamente alguém. Mas ainda assim, ainda contra todas as suas crenças e vontades, lá estava. Mãe.

Continuou andando, sem tempo ou distancia, a velocidade do tempo. E depois do que pareceram horas, dias, meses e anos, chegou. Tremia, chorava, andava. Mas chegou. E era, era mãe e era ela.