Algum presente

Sentada na poltrona, enrolada em um cobertor, um cigarro preso entre os lábios pensativos, a caneta vermelha dançava no ar compenetrada em seu trabalho de editar, a caneca de chá ao alcance da mão livre e a fumaça crescia ao seu redor. O cabelo meio preso, meio solto, com algumas mechas ao seu redor esvoaçando enquanto virava a cabeça lentamente acompanhando as curvas das frases.

O sutiã preto rendado, o batom meio apagado e a maquiagem meio borrada. Era um final de dia difícil, mas ainda assim o final. Ela logo largaria suas páginas por editar, trocaria o chá quente por um vinho tinto, faria carinho entre as orelhas do cachorro, andaria descalça pela casa enrolada em seu fiel cobertor, se largaria no sofá do mesmo jeito que estava (sutiã, shorts e cobertor) e entraria nos sonhos com o gato no colo e o cachorro aos seus pés.

Ele só chegaria mais tarde, bem mais tarde. As folhas do dia largadas sobre a mesa ao lado da poltrona, cheias de marcas da caneca de chá e agora seguradas pela caneca. Os cigarros amontoados ao lado, empilhados no cinzeiro. A taça de vinho em cima da mesa de jantar, no meio do caminho entre o quarto e o sofá. E ela… ela aconchegada no sofá dormindo, sem ter (novamente) conseguido resistir aos sonhos ao esperar por ele. O gato continuava servilmente com ela, quase um ursinho de pelúcia enquanto o cachorro esquentava o outro lado do sofá aos seus pés. O cobertor meio jogado meio cobrindo o pijama nada convencional no qual ela acabava dormindo a maioria das noites.

Ele iria estar ali, olhando, imaginando, suspirando. Ela teria se espreguiçado do sonho bom que estava e caído na realidade olhando os olhos dele. O gato pularia e o cachorro o seguiria, indo cada um para sua cama. Ele deitaria-se com ela, no sofá mesmo. Ela o receberia convidativa e quente, de braços abertos. E eles ficariam ali, abraços na penumbra da televisão que brilhava com algum filme. Sem falar do dia cansativo, sem reclamar de algum chefe ou do trabalho, sem pensar, sem planejar nada. Aconchegando-se nos braços um do outro, recarregando as energias, abastecendo as forças e amortecendo a saudade.

Ele teria levantado-se cansado, “vem, é hora de ir pra cama”, ela ainda sonolenta, viraria-se de lado e negaria com a cabeça, espalhando o cabelo em todas as direções. Ele teria rido e a pegou no colo, jogou-a por cima do ombro, fazendo-a gritar de surpresa e rir. Enquanto ela tentaria se libertar, ele a jogaria na cama e a seguiria contente. Os risos e sorrisos dos dois juntos iriam ecoar pela doce noite mansa do apartamento. As sombras aveludadas abafariam levemente o som para que não se propagasse além da felicidade dos dois.

As horas teriam passado desapercebidas e deliciosas para os dois. A luz da lua teria caminhado livremente pelos cantos obscuros do apartamento e saído com a chegada da manhã. Mas nada disso aconteceu. Nada disso foi possível. Por que a realidade aconteceu em algum momento entre a chegada e a partida impedindo que a rotina normal se desenrolasse. Tudo teria acontecido normalmente, se no caminho para casa não tivessem manchado de vermelho vivo a neve fresca e a camisa nova que ela tão amavelmente havia comprado para ele.

A rotina saborosa deles teria acontecido e levando ao mesmo prazeroso fim de todos os dias, se naquele dia a realidade brutal não tivesse requisitado presença na vida dos dois, pintando com medo e terror uma noite de céu estrelado sem nuvens. Mas a realidade, cruel, resolveu se intrometer nos planos deles.

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Sua garota é adorável, Hubbell

A fumaça preenchia lentamente o ambiente. Apenas o rastro do perfume dela havia ficado. Nenhum fio de cabelo, nenhum livro, cd, filme, calcinha ou pijama havia ficado para trás. Se perguntava se era melhor assim, pensava se ela algum dia teria uma boa escolha, mas mais doloroso ainda era se perguntar se ele havia sido uma boa escolha.

E por mais que quisesse negar, as evidencias diziam que não. Tudo com ela era fácil e leve, o cheiro, o cabelo, o sorriso, até o seu jeito de pensar era leve e ao mesmo tempo inebriante. Sua garota é adorável, Hubbell. Apesar que dessa vez ele era a garota. Apagou o cigarro no cinzeiro já transbordando e desceu da janela. Se esqueceu que poderia fumar em qualquer lugar, ela não estava mais ali para vigiar o aroma da casa, mas certos hábitos demoram a se perder.

Pensativo e absorto em seus pensamentos, jogado na cama folheando outro livro não viu as sombras do quarto migrarem de uma ponta a outra e desaparecerem dentro da noite. O luminoso do hotel do outro lado da rua iluminava de vermelho e azul o interior do quarto, e manchava de vermelho as páginas brancas do livro. Era esse o problema, pensava demais, complicava demais, era complexo demais. Onde ela via um simples caminho, ele via ramificações, encontros, bifurcações e encruzilhadas.

Um desejo pulsante dentro de si queria ser simples e fácil como ela é. Mas é algo que ia contra sua natureza, contra seu ser. Não poderia ir contra si mesmo. Ao se levantar para dar  comida ao cachorro, notou a falta da bagunça, das roupas jogadas pelo chão, dos copos e canecas espalhados pela casa. O apartamento estava limpo e organizado, como era antes dela. Como se ela nunca tivesse posto os pés, mãos, pernas, braços, cabeça e tronco para dentro. A raiva que crescia dentro dele desde a última vez que ela saiu do apartamento hoje estava controlada, amenizada, anestesiada.

A verdade, a mentira e a ilusão eram coisas com quais debatia todos os dias, mas cada vez menos, cada diz menos. Mas por hoje, por hoje foi tirando peça por peça, largando-as soltas pelo apartamento. Comeu na cama, não lavou o prato e foi dormir com um copo cheio ao lado da cama.

Não podia ser simples, não podia ser descomplexado e não podia não pensar ou pensar pouco. Mas podia deixar a casa um pouquinho bagunçada, podia se soltar um pouco. Aquele era o seu jeito de dizer “Sua garota é adorável, Hubbell”.