Sua garota é adorável, Hubbell

A fumaça preenchia lentamente o ambiente. Apenas o rastro do perfume dela havia ficado. Nenhum fio de cabelo, nenhum livro, cd, filme, calcinha ou pijama havia ficado para trás. Se perguntava se era melhor assim, pensava se ela algum dia teria uma boa escolha, mas mais doloroso ainda era se perguntar se ele havia sido uma boa escolha.

E por mais que quisesse negar, as evidencias diziam que não. Tudo com ela era fácil e leve, o cheiro, o cabelo, o sorriso, até o seu jeito de pensar era leve e ao mesmo tempo inebriante. Sua garota é adorável, Hubbell. Apesar que dessa vez ele era a garota. Apagou o cigarro no cinzeiro já transbordando e desceu da janela. Se esqueceu que poderia fumar em qualquer lugar, ela não estava mais ali para vigiar o aroma da casa, mas certos hábitos demoram a se perder.

Pensativo e absorto em seus pensamentos, jogado na cama folheando outro livro não viu as sombras do quarto migrarem de uma ponta a outra e desaparecerem dentro da noite. O luminoso do hotel do outro lado da rua iluminava de vermelho e azul o interior do quarto, e manchava de vermelho as páginas brancas do livro. Era esse o problema, pensava demais, complicava demais, era complexo demais. Onde ela via um simples caminho, ele via ramificações, encontros, bifurcações e encruzilhadas.

Um desejo pulsante dentro de si queria ser simples e fácil como ela é. Mas é algo que ia contra sua natureza, contra seu ser. Não poderia ir contra si mesmo. Ao se levantar para dar  comida ao cachorro, notou a falta da bagunça, das roupas jogadas pelo chão, dos copos e canecas espalhados pela casa. O apartamento estava limpo e organizado, como era antes dela. Como se ela nunca tivesse posto os pés, mãos, pernas, braços, cabeça e tronco para dentro. A raiva que crescia dentro dele desde a última vez que ela saiu do apartamento hoje estava controlada, amenizada, anestesiada.

A verdade, a mentira e a ilusão eram coisas com quais debatia todos os dias, mas cada vez menos, cada diz menos. Mas por hoje, por hoje foi tirando peça por peça, largando-as soltas pelo apartamento. Comeu na cama, não lavou o prato e foi dormir com um copo cheio ao lado da cama.

Não podia ser simples, não podia ser descomplexado e não podia não pensar ou pensar pouco. Mas podia deixar a casa um pouquinho bagunçada, podia se soltar um pouco. Aquele era o seu jeito de dizer “Sua garota é adorável, Hubbell”.

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