Passado presente

Sequer o vento se atrevia a interromper, deixando o único som ser o do velho balanço que ela lentamente empurrava. Os pés não deixavam o chão, sempre presos seja pela ponta ou pelo calcanhar. As mãos apoiadas levemente  entre as correntes e o banco velho de madeira, o cigarro queimava livre, acumulando-se na ponta. Seus olhos estavam longe, em locais e tempos passados. A luz da lua refletia sem brilho em seus olhos claros, indo e saindo da luz, protegendo-se nas sombras da antiga árvore e as vezes relevada pela luz da noite. As sombras de um passado distante e do presente enevoavam o semblante pálido.

A claridade da manhã invadia o quarto pelas frestas da janela. Por mais que lutasse contra a claridade a acordava. Segura entre os braços dele não sabia se levantava e partia ou se ficava e aproveitava aquela felicidade fugaz. Era confortável e bom, e em como raras vezes a fazia sentir pertencente. Rendeu-se a ele, ao sono, ao abraço, aos sonhos, e deixou para mais tarde para pensar no trabalho, nas responsabilidades e no que o futuro traria. 

O vazio crescia aos poucos, como o silêncio. Não era a saudade, nem a falta, mas o vazio que incomodava. Já faziam quatro meses desde que ele se fora e todo o drama já tinha passado. A paixão louca, a dor insuportável, a falta de ar, tudo era só algo que tinha acontecido, ao que parecia, a uma outra pessoa. Se sentia satisfeita consigo mesma, a carreira, o mestrado, os amigos, tudo certo. Mas o silêncio ainda estava ali e ainda a incomodava profundamente. 

Ele a puxou para mais perto, mais junto. Beijou sua nuca e acariciou sua cintura. Ela riu espalhando ainda mais os cabelos pela cama. Ele aconchegou-se em meio a seus cabelos, fugindo da claridade do dia. Ela virou-se para ele e beijou-o rapidamente, ele mantinha os olhos fechados ainda sonolento, mas seus lábios já sorriam querendo acordar. O mundo acordava lá fora e eles entregavam-se novamente, antes de ter que enfrentar a dura realidade de novo. 

O começo foi complicado, o primeiro dia insuportável. As malas acumuladas a um canto nunca pareceram tão grandes e espaçosas. A casa nunca pareceu tão vazia. Ele circulou os olhos pelo apartamento buscando algo que tivesse deixado para trás, mas não cruzou os olhos com ela. Pegou sua mochila e saiu. Os pais dele entraram para pegar as malas, sem uma palavra, fazendo cada barulho ecoar pelo andar inteiro. Sentia-se jogada no chão, sem mundo. 

Ele a beijou na porta e ficou vendo-a partir com a mesma roupa que tinha chegado na noite anterior. Os cabelos bagunçados, o sorriso nos lábios e o brilho nos olhos modificavam completamente aquela garota. Com o coração leve e a alma limpa ela voltou para casa, foi para o trabalho, e passou o dia com aquela noite na cabeça. Ansiosa esperou por um sinal, uma palavra uma frase, que nunca veio.

Com o gato de um lado e o cachorro do outro ela ficou no sofá encarando a tv desligada como se fosse a coisa mais interessante do mundo. Não sabia o que fazer. Sequer conseguia chorar, estava abismada demais para aquilo. Seus movimentos eram automático e sem vida, cuidou da casa, dos seus fieis amigos. O sol foi a pino e voltou, e ela ainda estava ali, parada, estática, encarando o nada e tudo aquilo que ficou para trás. 

A segunda noite foi melhor que a primeira, e ela não sabia como isso era possível. Nunca se sentiu tão confortável com alguém em tão pouco tempo. Sentia como se alguém tivesse entregue a ele um manual  de instruções seu. Depois de uma noite rindo e aproveitando a companhia um do outro, ele a pegou no colo e levou para o quarto, de onde ela saiu apenas na manhã seguinte, correndo de volta para a realidade. 

A vida começava a voltar para os olhos dela. Ela quase conseguia respirar de novo. Quase. Fazia um mês que ele havia partido. E só agora alguma coisa parecida com vida começava a voltar para ela. Abriu a porta do banheiro e leu seu lembrete de todos os dias. “Quero ver você na pista da vida dançando sem parar”. Sorriu fracamente. E seguiu para mais um dia. O cachorro e o gato a seguiam pela casa, em cada passo e curva que cada. Seus companheiros mais amigos e fieis. 

A rotina secreta deles repetia-se cada vez mais frequentemente. Era quase assustador como em tão pouco tempo eles já tinham uma rotina juntos. O tempo juntos era cada vez maior. E ela se entregava cada vez mais, sem pudor algum. Um sentimento real começava a nascer das noites de um prazer quase culpado. Como sempre ele a colocou no colo, e perguntou do seu dia, do que tinha feito e do que queria fazer aquela noite. Ele pedia beijos e atenção, carinho e colo. 

A mensagem veio como um soco e liberou tudo que ela vinha contendo a tanto tempo. Chorou como nunca havia chorado. Seu coração partido urrava e gritava por liberdade e compreensão. A raiva e a felicidade andavam juntas, brigando por espaço em sua cabeça. A garganta se fechou de raiva, seu coração deu um pulo de felicidade e o ar sumiu de seus pulmões. “Te quero de volta”, era tudo o que ele dizia. 

Não era a sua intenção, nem o que queria. Mas aos poucos, conhecendo melhor aquele com quem passava a maior parte de suas noites, começou a se apaixonar. Ele era delicado e sensível. Era engraçado e sério. Ele não prendia nem soltava. Seus carinhos e suas paixões combinavam. Mas ao olhar nos olhos dele, se assustava com o vazio que se refletiam nos seus. 

A primeira vez é sempre ruim. Mas esquecem de te contar que a segunda é quase insuportável. A depressão que tinha superado tantos anos antes rondava felina a sua volta, querendo voltar. O desespero de superar a dor do segundo termino e evitar a depressão eram quase gritantes. Mas dessa vez sabia o que fazer, e sabia como fazer. A recuperação foi mais dolorosa e mais rápida que a primeira vez. Reencontrar-se foi quase fácil. Descobrir-se sozinha foi renovador. E a felicidade começava a se instalar permanentemente quando “Eu não consigo te esquecer”, apareceu na sua vida. 

Ele a rodava e rodava. O som do riso conjunto se espalhava pela sala, corredor e quarto. Tudo era preenchido por riso. Mesmo com os olhos vazios a felicidade habitava aqueles momentos. Um par de olhos mais vivos que outros. A música animada os fazia dançar. Aproveitando que ninguém estava vendo, eles faziam tudo o que queriam. 

Como não poderia ir mais para baixo, a terceira vez só a vez subir. Sem mais algemas de seu algoz seu corpo flutuou feliz e livre. O passado se transformou em apenas passado. Os seus olhos sem vida sorriam e possibilidades apareciam em todos os lugares. A verdade era que seu coração havia finalmente se curado, se não de todas, mas da maioria dos machucados e torturas pelas quais havia passado. E quando finalmente colocou um ponto final naquilo, alguém lhe sorriu, e ela conseguiu sorrir de volta. 

As carência curadas, as feridas saradas. Queria mais do que tinham, e não sabia quanto mais poderia receber ou conseguir com ele. Os sorrisos, os olhares, a felicidades, o conjunto dos dois a fazia querer ficar mais tempo. Mas ao olhar nos olhos dele sabia que aquela felicidade escondida era tudo o que poderiam ter. E ela queria mais, queria tudo. Sentou com ele uma última vez, para um último filme. Deitou com ele uma última vez, para uma última noite. Acordou com ele uma última vez, para um último beijo. Explicou o porque e partiu sem dizer adeus. 

Começos eram sempre bons. Mas aquele foi melhor. Um novo começo depois de tantos finais fazia bem para ela. Ainda mais um tão surpreendente. Um tão novo e inesperado. Ela achava que ele sequer a havia notado, e não percebeu que os olhos dele a seguiam a noite toda. Com um frio na barriga e excitação ela saiu para seu primeiro encontro depois de muito tempo. Um tanto nervosa e ansiosa, não tinha certeza do que fazer ou de como agir. 

 

Ao levantar-se o passado e o presente haviam sumido. Apagou o cigarro no chão de terra batida e se levantou. O vento voltando a soprar seus cabelos. Não tinha lágrimas para chorar, não tinha tristezas para sentir, não tinha arrependimento ou culpa para cultivar. Apenas o vento para levá-la aonde quer que fosse.

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