Wide Open – Rx Bandits

Estava começando a chover quando ela virou as costas e o deixou ali parado na chuva. As lágrimas dele se misturam a garoa, tornando-se imperceptíveis as pessoas que passavam, mas os olhos dele ardiam com a chuva e as lágrimas. Ele era definitivamente uma causa perdida, de novo estava sendo deixado por ela.

Ela disse que não queria mais falar com ele, deixar tudo no passado, que ele não era o que ela procurava em alguém. Mas ele não conseguia acreditar nas palavras dela, podia ver em seus olhos uma vontade, mesmo quando não havia mais ninguém por perto, ela ainda fugia de medo. Assustadiça por algo que nem ela mesma sabia o que era.

Sempre procurando e querendo o que não podia ter, ela era uma máquina de querer. O deixava para trás, para depois voltar implorando por mais, e ele (como sempre) não conseguia negar nada. Ela estava quebrada de alguma forma, em frente a ele ficava vulnerável, praticamente nua. Se afastando para logo depois voltar pedindo por mais, ela nunca sabia o que queria.

Ainda assim, era a perfeição que só nós podemos imaginar, em seu jeito quebrada e vulnerável, ela se abria sem barreiras para ele, se mostrava por inteira, nua. Ele não conseguia resistir a aquele jeito dela, ao sorriso inocente. Apenas ela conseguia abri-lo daquela forma, fazê-lo falar abertamente. O medo não a deixava sentir,  mas ela ainda queria se divertir com ele. O que poderia fazer, como iria negar algo àquele corpo, aquele olhar que só ela tinha?

We’re always keeping score
Got a good look but shots kept falling short
Real love’s not a bluff
One half-step you know that ain’t enough

We always want what we can’t afford
Walking away but we crawlin for more
Imperfections that we can’t hide
Wide open
Naked and vulnerable

Amores

Ela estava recostada no peito dele enquanto via o episódio novo da série que assistiam juntos. A cadeira era pequena, mas aparentemente no tamanho perfeito para abrigar aos dois. Uma das mãos dele segurava firme em sua cintura, enquanto a outra acariciava preguiçosamente o seio esquerdo. Sem desviar os olhos da tela, ela ria e beijava o canto dos lábios dele. Enquanto ele se aconchegava na curva do pescoço dela. Estavam sempre assim, meio amontoados um em cima do outro, equilibrando-se levemente para não cair no chão.

O apartamento meio vazio, meio cheio de caixas de uma mudança em andamento. Os moveis bagunçados, encaixotados e fora do lugar. Mas ainda assim era um lugar acolhedor e convidativo. O cigarro compartilhado passava de lábios em lábios, enquanto a penumbra preenchia a sala. A noite chegava despercebida para eles, que estavam mergulhados neles mesmos.

Com o fim do episódio, saíram de seu pequeno mundo particular e de volta a realidade. Ele a abraçou mais forte, aproximando-a de si, “não vai agora não, tá tão gostoso aqui” ele sussurrou para a clavícula dela. Uma de suas mãos entrando por de baixo da blusa e chegando até o seio dela, enquanto a outra descia e a segurava por baixo. Ela não resistiu, e deixou-se levar pelos carinhos, recostou a cabeça no ombro dele e fechou lentamente os olhos.

A noite invadia cada canto do apartamento agora escuro, e eles não se importaram em acender nenhuma luz. Deitados contra o chão de madeira, o calor do verão entrava pelas janelas abertas. Acariciados pela noite e pela penumbra, ninguém para presenciar o amor deles a não ser pelos gatos.

Ele a tocava de olhos fechados, as mãos passeando pelo corpo que conhecia tão bem, melhor que o dele próprio. Ela respondia os carinhos com igual intensidade, tocando-o como apenas ela havia aprendido a fazer, cada pequeno segredo, cada pequeno prazer. Em sua primeira noite juntos no novo apartamento, com um novo começo e uma nova vida, eles começavam um novo amor.

Seus risos e gemidos preenchiam o vazio deixado pelos móveis, estreando cada pedaço e parte do novo apartamento com suas poses favoritas, eles terminaram no quarto, ofegantes e exaustos. Aninhada em seu peito novamente, ela parecia sempre menor do que realmente era, como se ele pudesse abraça-la por completo e escondê-la do resto do mundo, seria seu pequeno segredo do resto do mundo. Com o coração ainda acelerado ela abraçou-se fortemente a ele, sentindo-se segura e em casa. Nenhum dos dois falava nada, palavras eram desnecessárias, seus corpos tinham tido um longa e exaustiva conversa.

Deixou-a deitada confortavelmente na cama e foi buscar a comida japonesa que havia, finalmente, chegado. Na cama nus, eles riam enquanto comiam e planejavam seu futuro juntos. Nada de errado podia acontecer, nenhum mal podia se abater sobre eles, eram jovens, apaixonados e tinham todo o tempo do mundo para realizar todos os seus sonhos.

 

Não quis interromper,  fiquei quieta em um canto apenas observando, tão raro ver dois jovens sonhando acordados, que fiquei com pena de atrapalhar com minhas preocupações e responsabilidades. Sai como entrei, sem nenhum baralho, com a lembrança daqueles sorrisos na memória.

Ass, realidade.

Irmãos

Tudo na minha vida é em dobro, em dois, duas vezes. Até houve um tempo onde os acontecimentos eram singulares, mas foi a tanto tempo que eu não me lembro. Só lembro dos dois, do duo, da dicotomia constante que vivo, não consigo me lembrar de outra vida na qual o meu negativo não tenha um positivo, e o meu preenchido não tenha um vazio.

São combinações estranhas. Uma vida a dois divida para sempre. Um gêmeo que chegou atrasado. Mesmo dia, praticamente o mesmo horário, como gêmeos mesmo. E essa é a parte engraçada, já que durante muito tempo, não era possível distinguir um do outro. Cabelos iguais, vozes iguais, olhos iguais, alturas iguais.

Quartos divididos, camas, medos, histórias, brinquedos, atenção, cachorro, sofá, televisão, computador, carro, tempo, horário e tatuagem.

Gostos diferentes, ambições, preferências, habilidades, jeitos, tipos.

 

Feliz aniversário para a gente, que divide tudo, até o aniversário!

Passado presente

Sequer o vento se atrevia a interromper, deixando o único som ser o do velho balanço que ela lentamente empurrava. Os pés não deixavam o chão, sempre presos seja pela ponta ou pelo calcanhar. As mãos apoiadas levemente  entre as correntes e o banco velho de madeira, o cigarro queimava livre, acumulando-se na ponta. Seus olhos estavam longe, em locais e tempos passados. A luz da lua refletia sem brilho em seus olhos claros, indo e saindo da luz, protegendo-se nas sombras da antiga árvore e as vezes relevada pela luz da noite. As sombras de um passado distante e do presente enevoavam o semblante pálido.

A claridade da manhã invadia o quarto pelas frestas da janela. Por mais que lutasse contra a claridade a acordava. Segura entre os braços dele não sabia se levantava e partia ou se ficava e aproveitava aquela felicidade fugaz. Era confortável e bom, e em como raras vezes a fazia sentir pertencente. Rendeu-se a ele, ao sono, ao abraço, aos sonhos, e deixou para mais tarde para pensar no trabalho, nas responsabilidades e no que o futuro traria. 

O vazio crescia aos poucos, como o silêncio. Não era a saudade, nem a falta, mas o vazio que incomodava. Já faziam quatro meses desde que ele se fora e todo o drama já tinha passado. A paixão louca, a dor insuportável, a falta de ar, tudo era só algo que tinha acontecido, ao que parecia, a uma outra pessoa. Se sentia satisfeita consigo mesma, a carreira, o mestrado, os amigos, tudo certo. Mas o silêncio ainda estava ali e ainda a incomodava profundamente. 

Ele a puxou para mais perto, mais junto. Beijou sua nuca e acariciou sua cintura. Ela riu espalhando ainda mais os cabelos pela cama. Ele aconchegou-se em meio a seus cabelos, fugindo da claridade do dia. Ela virou-se para ele e beijou-o rapidamente, ele mantinha os olhos fechados ainda sonolento, mas seus lábios já sorriam querendo acordar. O mundo acordava lá fora e eles entregavam-se novamente, antes de ter que enfrentar a dura realidade de novo. 

O começo foi complicado, o primeiro dia insuportável. As malas acumuladas a um canto nunca pareceram tão grandes e espaçosas. A casa nunca pareceu tão vazia. Ele circulou os olhos pelo apartamento buscando algo que tivesse deixado para trás, mas não cruzou os olhos com ela. Pegou sua mochila e saiu. Os pais dele entraram para pegar as malas, sem uma palavra, fazendo cada barulho ecoar pelo andar inteiro. Sentia-se jogada no chão, sem mundo. 

Ele a beijou na porta e ficou vendo-a partir com a mesma roupa que tinha chegado na noite anterior. Os cabelos bagunçados, o sorriso nos lábios e o brilho nos olhos modificavam completamente aquela garota. Com o coração leve e a alma limpa ela voltou para casa, foi para o trabalho, e passou o dia com aquela noite na cabeça. Ansiosa esperou por um sinal, uma palavra uma frase, que nunca veio.

Com o gato de um lado e o cachorro do outro ela ficou no sofá encarando a tv desligada como se fosse a coisa mais interessante do mundo. Não sabia o que fazer. Sequer conseguia chorar, estava abismada demais para aquilo. Seus movimentos eram automático e sem vida, cuidou da casa, dos seus fieis amigos. O sol foi a pino e voltou, e ela ainda estava ali, parada, estática, encarando o nada e tudo aquilo que ficou para trás. 

A segunda noite foi melhor que a primeira, e ela não sabia como isso era possível. Nunca se sentiu tão confortável com alguém em tão pouco tempo. Sentia como se alguém tivesse entregue a ele um manual  de instruções seu. Depois de uma noite rindo e aproveitando a companhia um do outro, ele a pegou no colo e levou para o quarto, de onde ela saiu apenas na manhã seguinte, correndo de volta para a realidade. 

A vida começava a voltar para os olhos dela. Ela quase conseguia respirar de novo. Quase. Fazia um mês que ele havia partido. E só agora alguma coisa parecida com vida começava a voltar para ela. Abriu a porta do banheiro e leu seu lembrete de todos os dias. “Quero ver você na pista da vida dançando sem parar”. Sorriu fracamente. E seguiu para mais um dia. O cachorro e o gato a seguiam pela casa, em cada passo e curva que cada. Seus companheiros mais amigos e fieis. 

A rotina secreta deles repetia-se cada vez mais frequentemente. Era quase assustador como em tão pouco tempo eles já tinham uma rotina juntos. O tempo juntos era cada vez maior. E ela se entregava cada vez mais, sem pudor algum. Um sentimento real começava a nascer das noites de um prazer quase culpado. Como sempre ele a colocou no colo, e perguntou do seu dia, do que tinha feito e do que queria fazer aquela noite. Ele pedia beijos e atenção, carinho e colo. 

A mensagem veio como um soco e liberou tudo que ela vinha contendo a tanto tempo. Chorou como nunca havia chorado. Seu coração partido urrava e gritava por liberdade e compreensão. A raiva e a felicidade andavam juntas, brigando por espaço em sua cabeça. A garganta se fechou de raiva, seu coração deu um pulo de felicidade e o ar sumiu de seus pulmões. “Te quero de volta”, era tudo o que ele dizia. 

Não era a sua intenção, nem o que queria. Mas aos poucos, conhecendo melhor aquele com quem passava a maior parte de suas noites, começou a se apaixonar. Ele era delicado e sensível. Era engraçado e sério. Ele não prendia nem soltava. Seus carinhos e suas paixões combinavam. Mas ao olhar nos olhos dele, se assustava com o vazio que se refletiam nos seus. 

A primeira vez é sempre ruim. Mas esquecem de te contar que a segunda é quase insuportável. A depressão que tinha superado tantos anos antes rondava felina a sua volta, querendo voltar. O desespero de superar a dor do segundo termino e evitar a depressão eram quase gritantes. Mas dessa vez sabia o que fazer, e sabia como fazer. A recuperação foi mais dolorosa e mais rápida que a primeira vez. Reencontrar-se foi quase fácil. Descobrir-se sozinha foi renovador. E a felicidade começava a se instalar permanentemente quando “Eu não consigo te esquecer”, apareceu na sua vida. 

Ele a rodava e rodava. O som do riso conjunto se espalhava pela sala, corredor e quarto. Tudo era preenchido por riso. Mesmo com os olhos vazios a felicidade habitava aqueles momentos. Um par de olhos mais vivos que outros. A música animada os fazia dançar. Aproveitando que ninguém estava vendo, eles faziam tudo o que queriam. 

Como não poderia ir mais para baixo, a terceira vez só a vez subir. Sem mais algemas de seu algoz seu corpo flutuou feliz e livre. O passado se transformou em apenas passado. Os seus olhos sem vida sorriam e possibilidades apareciam em todos os lugares. A verdade era que seu coração havia finalmente se curado, se não de todas, mas da maioria dos machucados e torturas pelas quais havia passado. E quando finalmente colocou um ponto final naquilo, alguém lhe sorriu, e ela conseguiu sorrir de volta. 

As carência curadas, as feridas saradas. Queria mais do que tinham, e não sabia quanto mais poderia receber ou conseguir com ele. Os sorrisos, os olhares, a felicidades, o conjunto dos dois a fazia querer ficar mais tempo. Mas ao olhar nos olhos dele sabia que aquela felicidade escondida era tudo o que poderiam ter. E ela queria mais, queria tudo. Sentou com ele uma última vez, para um último filme. Deitou com ele uma última vez, para uma última noite. Acordou com ele uma última vez, para um último beijo. Explicou o porque e partiu sem dizer adeus. 

Começos eram sempre bons. Mas aquele foi melhor. Um novo começo depois de tantos finais fazia bem para ela. Ainda mais um tão surpreendente. Um tão novo e inesperado. Ela achava que ele sequer a havia notado, e não percebeu que os olhos dele a seguiam a noite toda. Com um frio na barriga e excitação ela saiu para seu primeiro encontro depois de muito tempo. Um tanto nervosa e ansiosa, não tinha certeza do que fazer ou de como agir. 

 

Ao levantar-se o passado e o presente haviam sumido. Apagou o cigarro no chão de terra batida e se levantou. O vento voltando a soprar seus cabelos. Não tinha lágrimas para chorar, não tinha tristezas para sentir, não tinha arrependimento ou culpa para cultivar. Apenas o vento para levá-la aonde quer que fosse.

Algum presente

Sentada na poltrona, enrolada em um cobertor, um cigarro preso entre os lábios pensativos, a caneta vermelha dançava no ar compenetrada em seu trabalho de editar, a caneca de chá ao alcance da mão livre e a fumaça crescia ao seu redor. O cabelo meio preso, meio solto, com algumas mechas ao seu redor esvoaçando enquanto virava a cabeça lentamente acompanhando as curvas das frases.

O sutiã preto rendado, o batom meio apagado e a maquiagem meio borrada. Era um final de dia difícil, mas ainda assim o final. Ela logo largaria suas páginas por editar, trocaria o chá quente por um vinho tinto, faria carinho entre as orelhas do cachorro, andaria descalça pela casa enrolada em seu fiel cobertor, se largaria no sofá do mesmo jeito que estava (sutiã, shorts e cobertor) e entraria nos sonhos com o gato no colo e o cachorro aos seus pés.

Ele só chegaria mais tarde, bem mais tarde. As folhas do dia largadas sobre a mesa ao lado da poltrona, cheias de marcas da caneca de chá e agora seguradas pela caneca. Os cigarros amontoados ao lado, empilhados no cinzeiro. A taça de vinho em cima da mesa de jantar, no meio do caminho entre o quarto e o sofá. E ela… ela aconchegada no sofá dormindo, sem ter (novamente) conseguido resistir aos sonhos ao esperar por ele. O gato continuava servilmente com ela, quase um ursinho de pelúcia enquanto o cachorro esquentava o outro lado do sofá aos seus pés. O cobertor meio jogado meio cobrindo o pijama nada convencional no qual ela acabava dormindo a maioria das noites.

Ele iria estar ali, olhando, imaginando, suspirando. Ela teria se espreguiçado do sonho bom que estava e caído na realidade olhando os olhos dele. O gato pularia e o cachorro o seguiria, indo cada um para sua cama. Ele deitaria-se com ela, no sofá mesmo. Ela o receberia convidativa e quente, de braços abertos. E eles ficariam ali, abraços na penumbra da televisão que brilhava com algum filme. Sem falar do dia cansativo, sem reclamar de algum chefe ou do trabalho, sem pensar, sem planejar nada. Aconchegando-se nos braços um do outro, recarregando as energias, abastecendo as forças e amortecendo a saudade.

Ele teria levantado-se cansado, “vem, é hora de ir pra cama”, ela ainda sonolenta, viraria-se de lado e negaria com a cabeça, espalhando o cabelo em todas as direções. Ele teria rido e a pegou no colo, jogou-a por cima do ombro, fazendo-a gritar de surpresa e rir. Enquanto ela tentaria se libertar, ele a jogaria na cama e a seguiria contente. Os risos e sorrisos dos dois juntos iriam ecoar pela doce noite mansa do apartamento. As sombras aveludadas abafariam levemente o som para que não se propagasse além da felicidade dos dois.

As horas teriam passado desapercebidas e deliciosas para os dois. A luz da lua teria caminhado livremente pelos cantos obscuros do apartamento e saído com a chegada da manhã. Mas nada disso aconteceu. Nada disso foi possível. Por que a realidade aconteceu em algum momento entre a chegada e a partida impedindo que a rotina normal se desenrolasse. Tudo teria acontecido normalmente, se no caminho para casa não tivessem manchado de vermelho vivo a neve fresca e a camisa nova que ela tão amavelmente havia comprado para ele.

A rotina saborosa deles teria acontecido e levando ao mesmo prazeroso fim de todos os dias, se naquele dia a realidade brutal não tivesse requisitado presença na vida dos dois, pintando com medo e terror uma noite de céu estrelado sem nuvens. Mas a realidade, cruel, resolveu se intrometer nos planos deles.

Sua garota é adorável, Hubbell

A fumaça preenchia lentamente o ambiente. Apenas o rastro do perfume dela havia ficado. Nenhum fio de cabelo, nenhum livro, cd, filme, calcinha ou pijama havia ficado para trás. Se perguntava se era melhor assim, pensava se ela algum dia teria uma boa escolha, mas mais doloroso ainda era se perguntar se ele havia sido uma boa escolha.

E por mais que quisesse negar, as evidencias diziam que não. Tudo com ela era fácil e leve, o cheiro, o cabelo, o sorriso, até o seu jeito de pensar era leve e ao mesmo tempo inebriante. Sua garota é adorável, Hubbell. Apesar que dessa vez ele era a garota. Apagou o cigarro no cinzeiro já transbordando e desceu da janela. Se esqueceu que poderia fumar em qualquer lugar, ela não estava mais ali para vigiar o aroma da casa, mas certos hábitos demoram a se perder.

Pensativo e absorto em seus pensamentos, jogado na cama folheando outro livro não viu as sombras do quarto migrarem de uma ponta a outra e desaparecerem dentro da noite. O luminoso do hotel do outro lado da rua iluminava de vermelho e azul o interior do quarto, e manchava de vermelho as páginas brancas do livro. Era esse o problema, pensava demais, complicava demais, era complexo demais. Onde ela via um simples caminho, ele via ramificações, encontros, bifurcações e encruzilhadas.

Um desejo pulsante dentro de si queria ser simples e fácil como ela é. Mas é algo que ia contra sua natureza, contra seu ser. Não poderia ir contra si mesmo. Ao se levantar para dar  comida ao cachorro, notou a falta da bagunça, das roupas jogadas pelo chão, dos copos e canecas espalhados pela casa. O apartamento estava limpo e organizado, como era antes dela. Como se ela nunca tivesse posto os pés, mãos, pernas, braços, cabeça e tronco para dentro. A raiva que crescia dentro dele desde a última vez que ela saiu do apartamento hoje estava controlada, amenizada, anestesiada.

A verdade, a mentira e a ilusão eram coisas com quais debatia todos os dias, mas cada vez menos, cada diz menos. Mas por hoje, por hoje foi tirando peça por peça, largando-as soltas pelo apartamento. Comeu na cama, não lavou o prato e foi dormir com um copo cheio ao lado da cama.

Não podia ser simples, não podia ser descomplexado e não podia não pensar ou pensar pouco. Mas podia deixar a casa um pouquinho bagunçada, podia se soltar um pouco. Aquele era o seu jeito de dizer “Sua garota é adorável, Hubbell”.

Confusão

Sentia uma aperto, um puxão, uma sensação que só podia ser explicada por um buraco negro sendo aberto dentro do seu estomago. Esperava na fila ansiosa, angustiada. Hoje completavam dez anos, dez longos anos de esperas e recusas, de esforço e tentativas frustradas. Suas mãos tremiam e seus pés haviam desaprendido a parar quietos. Seu estomago não existia mais naquela dimensão, disso ela tinha certeza, já fazia sido sugado para onde quer que seja que aquele buraco negro levava.

Chegou sua vez antes que estivesse pronta. Os olhos naturalmente míopes estavam com dificuldade de ver, mesmo com os óculos. Demorou um segundo para firmar a visão, e então estava lá o seu nome. Na quinta linha, uma linha alta, um papel. Não era o papel que queria, mas era muito mais que ficar no coral.

Por um longo momento ficou incerta do que fazer. Achava que deveria ficar feliz, mas seu estomago insistia em querer ficar ansioso. Poderia chorar, rir, desmaiar ou vomitar naquele instante. Todas parecidas respostas aceitáveis. Mas como sempre, afastou-se sem dizer nada, controlando as mãos e os pés para que voltassem a obedece-la. Ouvia seu nome sendo chamado, ouvia pessoas, mas não conseguia registrar nada. Tudo parecia tão longe que era como se nem existissem. Só via aquela linha, singela, simples, preto no branco. E seu nome na frente.

O mundo a sua volta dissolveu-se, e apenas aquele papel, aquele personagem aparecia em sua frente. Uma palavra tão pequena, tão simples, tão aterrorizante que mudava tudo. Mãe. Repetia-a em sua mente, desacreditando na verdade. Seria mãe no papel e fora dele. Mas não queria, não era mãe ainda, não deveria ser mãe ainda.

Não acreditava em si o bastante para ter o amor e a confiança que são naturais as mães. Seus pés não estavam firmes o bastante no chão para ser segurar e apoiar completamente alguém. Mas ainda assim, ainda contra todas as suas crenças e vontades, lá estava. Mãe.

Continuou andando, sem tempo ou distancia, a velocidade do tempo. E depois do que pareceram horas, dias, meses e anos, chegou. Tremia, chorava, andava. Mas chegou. E era, era mãe e era ela.

Barcelia

O sol se punha por trás da grande cidade, a poeira deixada para trás depois do longo dia se espalhava pelo ar e refletia em dourado os raios de luz. Mal reparava-se na pequena sombra que seguia em direção oposta a de todos os habitantes da cidade. Na borda do mundo conhecido, bem na beira do precipício, ficava a grande cidade de Barcellia. Depois da beira vinha o abismo e mais nada que eles pudessem dizer além de névoas e queda. De um lado, punha-se o sol, do outro erguiam-se as luas, uma azul e uma vermelha. E naquele horário sagrado, todos voltavam-se para  a luz, com os corações preenchidos de medo, não queriam que o Negro se levanta-se com as luas, e por isso seguiam todos para a borda sul do precipício, para presenciar o último resquício de luz. De olhos baixados para o chão, andando a passos apresados tentava inutilmente seguir pela sombra, Gaia sabia que tinha que aproveitar os últimos momentos de luz para começar sua fuga, ou nunca conseguia escapar. Aquele era o momento perfeito, todos da cidade estavam ocupados demais com suas orações para vê-la ou impedi-la, mesmo os guardar estavam do outro lado da cidade e demorariam mais de uma hora para chegar até ela. Ao chegar ao portão norte suspirou, pegou o velho equipamento de escalada e olhou pela última vez para a cidade. O último raio de sol brilhou.

Barcellia

Real love

Some people read stories about real love, and how couple are happy together, and they want that for their lives. And that’s normal. What I think isn’t normal is that they want it now and fast. True love kind lost it meaning because of the amount of “Real True Love Stories” you got books, movies, poetry, music, tv shows and the internet.

People are forgetting that find real love it’s very hard and complicated. They think that will be easy and natural, and the truth is that woun’t. True and real love is not about how easy it is, but how hard you want to dedicate yourself to the love that you have found.  The most important thing about love is dedication, you have to dedicate yourself to the other, and the other must dedicate him or herself to you.

Every relationship have problems, that’s normal, not having problems is the freaky thing. The trick is stop everything else and resolve the problem. Then you can go on and love. Love is about fighting and arguing, but is also about resolving problems and staying together.  That’s love.

Love is just measure by itself. Is’t not about the beauty, the thoughts, the likes or dislikes, the gender or the political views that the other have, but about who he really is. And that’s something you send a life time trying to understand. That’s love, is understand that you will try every day know who you are and who the person next to you, and know that you both will change, and love the person that you were and the person you are now.

You don’t love the body, the ideas, the beauty or the gender. You love the soul that lives inside. I’m not religious, I don’t believe in god or thing like that, for me soul is the something special that makes art, literature, music, big changes, little changes, the creativity that makes things, the one thing that make us humans.