Peripécias da vida

Nada de contos, nada de reflexões sobre os acontecimentos do mundo, nada sobre a minha rotina ou nenhuma resenha de livro. Hoje vou falar sobre mim, sobre a minha vida, e sobre coisas que vocês não, provavelmente, não sabem.

Eu estou doente. São doenças tratáveis, embora o tratamento seja longo e as vezes doloroso. Não é nada que em seis ou oito meses eu já não esteja completamente curada e bem. Para todos os efeitos, o que eu tenho é um parasita no duodeno (canal que sai do estômago) que está causando uma duodenite, uma bactéria no estômago causando uma gastrite e isso tudo causando refluxo. São alguns antibióticos e alguns outros remédios, que as vezes me dão algumas reações adversas. Fora isso, estou gripada, é um gripe que vai e volta nos últimos 7 meses mais intensamente, mas que começou no ano passado. Isso quando não tenho algum outra infecção de garganta, febre ou minha rinite não ataca.

Você deve estar se perguntando porque eu estou falando tudo isso, reclamando um monte da minha vida. Na verdade, não estou reclamando, estou contando o que acontece comigo desde o começo do ano (quando a gastrite apareceu e a gripe piorou), só isso, só constatando. Eu sempre tive uma saúde muito boa, a ponto de quase nunca ter sequer uma gripe, então foi uma surpresa tanto para mim, quanto para meus pais, quando comecei a ficar doente.

Tudo poderia parecer sem explicação, sem sentindo, mas isso porque não estou contando tudo. Desde setembro do ano passado eu estou fazendo psicanalise. Ninguém é tão bem resolvido, ou se conheço tão bem que não ganhe fazendo análise. Ao mesmo tempo que me faz tão bem, pois descubro coisas sobre mim que eu não imaginava ou não queria imaginar, me deixa mal. Me deixa mal porque tanto eu, quanto a psicanlista acreditamos que minhas doenças tem causas psicológicas e não biológicas.

Eu explico, acredita-se que algumas pessoas, quando não estão bem emocionalmente ou psicologicamente, não tem reflexos psicológicos mas biológicos. Quer dizer que a pessoa em vez de ser depressiva acaba tendo gastrite, ou alguma outra doença. Então basicamente toda vez que eu deveria estar me acabando em lágrimas ou algo do tipo, em vez disso eu fico fisicamente doente, e geralmente isso sse manifesta em forma de gripe.

Novamente, porque eu estou falando tudo isso? Ontem, eu tive uma séria conversa com a minha mãe. E mais uma vez eu não consegui explicar ou dizer o que se passa comigo. Meus pais tem sérias dificuldades de entender tudo que acontece comigo, o modo como eu sinto, vejo e faço as coisas. Talvez eu tenha dito, e ela não tenha entendido, não sei. Sei que eu e eles somos diferentes, muito diferentes, e isso é palco de grandes discussões, como a de ontem, onde no final eu me sinto frustrada porque sinto que não consegui dizer diretamente o que se passa e minha mãe não conseguiu entender o que eu estava querendo dizer.

O resultado dessa discussão foi uma manhã de dor de cabeça, uma tarde de tontura, final de tarde com vômitos e estômago ruim, e uma noite no hospital. Chegamos as 20h saímos as 23h30.

Bárbara Bigon, pode se sentar. Dor de cabeça, tontura, gripe, vômitos, estomago ruim. Sentar na cama, descer da maca. Diagnostico do médico, crise de labirintite e crise de gastrite. Receitas e um atestado. Entrega guia pra enfermeira e espera. Os ponteiros do relógio parecem parados. Senta tira metade do casaco. Agulha, algodão, mil preparações. Remédio na veia. Enfermeira está doendo, é normal? É normal, pode ficar tranquila. Dor e tédio. A hora parece não passar. Sala enche e se esvaia. Mãe são 23h30, não aguento mais sentir dor. Calma, vai passar está acabando. Mãe pede pra tirar. Olhos cheios de lágrimas, congelando na sala fria sentindo dor. Enfermeira volta, tudo bem querida pode ir. Chegar em casa é sempre um alivio. Pai, irmão vendo futebol. Subo pro quarto, pijama, escova os dentes, cama.

Pela primeira vez na vida tomei remédio na veia. Senti um monte de coisas estranhas. Mas percebi que certas coisas só fazem sentindo quando se as conhece melhor, mais profundamente. Só quando analisamos melhor uma situação é que entendemos acontecimentos que a primeira vista são ilogicos. Está tudo ligado, e nada é por acaso, é tudo uma questão de se olhar melhor e mais profundamente.

No final, a verdadeira questão é : quanto você é capaz de aprofundar o seu olhar?