Roubo

O vão da escada olha-me por cima, curioso. O escuro da-me suas mãos azuis, fazendo companhia a mãos, cabelos, peles e roupas. Resta apenas um punhado de mim. Sou umas roupas na lavanderia, algumas panelas na pia. Sou um punhado de lençõis desarrumados, um resto de jornais jogados. Sobrou-me um corredor vazio, uma tábua solta, cores díspares. Os sussurros correm de minha boca. As palavras escorrem pesadas e cirandeiam. Têm cores que vão do fraco azul-noite quando o sol está preste a nascer, até o alaranjado esfumaçado de uma velha história que queima. Pequenos brilhos esparsos que na noite velam meus sonos mortos. São como nunca vi, pois nunca existiram se não em minha fraca visão turva. Nem mesmo o fim vi aproximar-se. Nem mesmo as nuvens vi chegando. Nem mesmo a mim vi indo. Não vi nada que não fosse o céu. Mas não era qualquer céu. Vi apenas o fim de céu. Naquele curto segundo de vida no qual noite e dia equilibram-se na gangorra. Aquele segundo em que todos olham para si. Eu olho para cima. Abro os braços e espero de olhos fechados. A chuva desce, carrega as luzes. O vento sobra-me. Agarro-me às nuvens, sou levada para longe nos braços dela.

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