Perdas

Era mais do que podia suportar, e por isso sorriu. Se fizesse ou tentasse fazer qualquer outra coisa desmoronaria e se partiria em pedaços ali mesmo. Não suportava olhar, não suportava ficar ali, e ainda assim se forçava, não saberia nem por um instante dizer o porque.

A multidão vestida de preto cochichava e flutuava de um lado para outro, quase como uma dança, um movimento hipnótico. Ela não conseguia ser direito, tudo parecia um borrão, entendimento e compreensão eram coisas muito distantes naquele momento, mesmo a assimilação de coisas pequenas era absurdamente complicado.

Olhou para dentro da sala novamente, os dois caixões postos um ao lado do outro. A dança do salão ainda acontecia, uns entravam, uns saíam, uns paravam para conversar, reencontravam parentes distantes e velhos amigos da escola.

Ela sentia-se ultrajada com a falta de respeito, como as pessoas podiam conversar e rir? Como poderiam se abraçar e agir como se tudo estivesse igual? O mundo dela tinha acabo de ruir para sempre, e aquelas pessoas nem se davam conta. Era humilhante demais, mas ela não iria se deixar abalar, não ali, não agora, depois, tudo depois. Depois o tempo curaria seu coração, depois ela choraria, depois ela sofreria, depois ela se quebraria em mil pedaços pequenos, não ali, não agora.

O mar de gente continua a flutuar ao seu redor, mal ouvia as condolências sussurradas ou os pedidos sem jeito, seu corpo poderia até estar ali, sua mente vaga enlouquecida em outro lugar, um lugar só dela. Cresceu solitária, e solitária foi por toda a vida, e agora pela primeira vez estava além de solitária, sozinha, carregava dentro de si uma solidão mais ainda, um isolamento sem fim do resto do mundo que a protegia de romper-se.

Fechou a mão em cima do colar que vazia pertencido a mãe, e a avó antes dela e a mãe dela antes dela, e assim há muitas gerações. Tentou pensar em algum lugar feliz, algum lugar que apenas tivesse boas lembranças, algum lugar para aliviar um pouco da dor. Não achou nenhum.

Havia apenas um lugar, um lugar que era só seu, sua mente, sua imaginação, seu templo pessoal de criatividade, o único lugar que poderia fugir e estar bem. As pessoas passavam por ela, mas ela não via, não ouvia, nem sentia. Eles não poderiam entender o que tinha acontecido, ela duvidava que alguém já tivesse tido todo o seu mundo tirado de si. Não havia restado nada, nem cinzas, nem pó, nem mesmo os destroços, apenas dois caixões vazios. Estava além da perda o que ela tinha sofrido, além do simples não ter por perto.

Disseram para ela que a vida continua, as coisas melhoram e tudo passa, mas será que passa realmente? Seria possível depois que todo o seu mundo havia sido tirado de si, seria possível continuar? Não era apenas um pedaço da vida dela que tinha sido levado desse mundo, mas toda a vida dela. O único problema é que ela ainda estava viva, ainda estava ali, e agora está sozinha, sem nada.