Entre amor e amizade

“Eu não te amo”. A frase parecia simples, a implicação nem tanto. Embora fosse uma verdade que ambos conheciam assumi-la em voz alta era confirmar sua veracidade e ele não sabia se poderia suportar ouvir aquela verdade. Sabia daquilo, sempre soubera daquilo, apenas não gostava de lembrar daquilo. Suspirou e encarou-a nos olhos, procurando algum vestígio de mentira, de ironia, de sarcasmo, de qualquer coisa que não fosse verdade.

Mas no olhar tão conhecido, encontrou apenas aquilo que mais temia, a confirmação da verdade, da certeza, sem a menor sombra de algo por perto. Conheciam-se há tanto tempo, tantos anos, quantas histórias… era impossível dizer ao certo. Levantou-se da cama, e com um último olhar deixou o quarto. Sabia que ela sofria por fazê-lo sofrer, mas enquanto o via deixar o quarto não vacilou em seu olhar, pois sabia que se vacilasse, seria pior.

Era um amor destinado a ser fraterno, e não poderia ser nada alem disso. No começo, talvez houvesse uma chance, mas não depois dele. Aquela pessoa havia sido o começo de uma mudança que ele não conseguia sequer imaginar. Pois antes dele haviam existido muitos eles, mas nenhum que causasse alguma mudança. Mas ele mudou tudo, mudou inclusive ela, principalmente ela. No momento que os dois se conheceram, e ela decidiu que o queria, tudo havia mudado.

Sempre se encontravam sem querer, sem realmente planejar, simplesmente ao acaso. Descobriam aquela banda em comum, um autor preferido que compartilhavam, aquele lugar no bosque que ambos adoram e não vão desde crianças, um desenho não muito conhecido que amavam e ainda sabem cantar a música da abertura. De longe via desesperado aquele conhecimento entre eles aumentar.

De perto percebia sua relação com ela alterar-se completamente. E não sabia o que fazer, o que pensar, o que sentir. Era seu melhor amigo, quem a conhecia melhor, quem estava sempre com ela, mas o coração dela não pertencia a ele. Namoravam mas não eram namorados, eram amigos. Não havia amor, paixão, mas havia. Amava-a como não seria capaz de amar nenhuma outra mulher.

O único fio que ainda restava era o fato de que ele não a queria. Todos os dias agradecia por isso ainda não ter acontecido, por ela ainda estar com ele e não com o outro. A sombra do medo o perseguia a todo instante e a cada encontro, o pensamento de que cedo ou tarde ele iria querê-la. Quando acontecesse, não haveria volta, e não houve.

Naquela manhã fria e cinzenta, as preferidas dela, com um sorriso nos lábios mas não no rosto, um semblante sério, nada típico dela, chamou-o delicada, olhou-o nos olhos e contou. Contou tudo o que ele não queria saber, mas ela queria contar. Ele ouviu tudo a contra gosto, mas no final veio o pior, o ultimato, sem volta, sem retorno ou sequer uma saída de emergência.

“Você sabia, eu não te amo”. “Eu não te amo”. “Não te amo”. Não”. A frase parecia simples, a implicação nem tanto. Formada com um conjunto de palavras pequenas, mas que postas juntas geravam um significado muito grande. Não havia para fazer, e por isso deixou o quarto, olhou para atrás apenas para confirmar e, quando teve certeza, deixou apenas a tristeza tomar conta e as lagrimas caírem sem deixar que ela visse. A ausência dela estava ali, ali ficou e nada a curaria.

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Solidão

Uma confissão    Um texto antigo que achei no outro blog, editei e vou postar aqui. Espero que entendam, 

 

Estou sozinha. Não há nada a fazer sobre isso, a cada passo que dou mais sozinha eu fico. Eu não pertenço a lugar algum, não me sinto em casa, não tenho nenhum lugar que chame de lar, local algum me aconchega, não há para onde retornar, porque nunca houve de onde parti. Ao meu redor, a solidão física permeia o espaço. Embora eu não vá a lugar algum sem ninguém, estou sempre só.

Olho a minha volta, e é frustrante perceber que estou só, enquanto todos estão  juntos. A solidão aumenta. Descobrir-se nada para o mundo é algo que causa ânsia. Estou constantemente nauseada e sinto que posso vomitar a qualquer instante, ou chorar, dá no mesmo. Noção de qualquer coisa que seja me escapa pelos dedos. Desaprendi a viver com pessoas porque estou vazia delas. Vejo-as o tempo todo, converso, ouço, toco, mas elas nada significam, são como luz ou vento no espaço, devem estar ali para compor o ambiente, nada mais. Qual a utilidade de qualquer uma delas em minha vida?


A indiferença preenche-me quando as vejo, ouço e sinto. Nada me causam, nada me acrescentam, continuo inutilmente igual a antes.


Sinto-me cada vez mais irrelevante ao mundo, cada vez mais inútil e desproposital. Penso e falo, olho e sinto, cheiro e ouço, sem que significado algum se faça para mim. O mundo gira, o mundo para, o mundo volta. As pessoas continuam as mesmas de sempre. Todas são as mesmas horríveis e mesquinhas de antes. Todas ainda sorriem quando me vêem passar. No fundo sei que é enrolação, posso sentir o ódio dirigido a mim, no ambiente, no meio das frases, entre os olhares. Lufadas de um ódio primitivo rondam o ambiente a minha procura. Não posso, contudo gritar-lhes para que parem, eles não o dizem.
Continuo caminhando, a cada passo mais sozinha, mais distante. É um caminho sem volta, com uma passagem só de ida, Passargada me espera ao final da linha de metro, de lá pego um trem direto até o castelo do rei, meu amigo. A sensação de náusea não me deixa dormir, descansar, sonhar. O pensamento latejante grita-me que não presto, é insistente o bastante para manter-me sempre atenta e alerta. O cansaço vem, os dias sucedem-se, e no final nada mudou, nada nunca muda.


As pessoas ainda lutam para serem as melhores, sem se importar realmente com as outras. Todos sempre têm dentro de si um egoísmo negro e um narcisismo vermelho, que mascaram com sorrisos brancos em um mundo cor-de-rosa. O mundo fede, as pessoas fedem, a tudo. Desde inveja inescrupulosa, ao exarcebado consumismo e o capitalismo, que não passam de desculpas para que as pessoas possam tomar o querem sem se sentirem culpadas.


Tudo ruí a nossa volta, e ninguém vê ou se importa, porque todos estão conseguindo o que querem, e os que não conseguem, mal tem força para erguer-se e dizer, e mesmo que dissessem, ninguém os entenderia ou pararia para ouvir.


O mundo é uma merda. E as pessoas são uma merda. A vida é uma merda. E ainda sim estou aqui viva, agarrada com todas as forças a uma vida que não me faz bem, a uma vida que apenas me mostra desespero e impotência.


Estou viva dentro de um mundo que temo em deixar. Temo o dia que não abrir os olhos para ver o céu cinza e as nuvens negras, o sol escaldante e as pessoas nojentas e ignorantes. Temo o dia que não poderei correr por dentre os carros fumarentos e barulhentos, entrar em uma sala mal conservada e olhar para as caras feias de pessoas desconhecidas.


Sou uma louca sem noção. Quando olho para mim, vejo que nada tenho, nada tive. A solidão que me acompanha, irá deixar-me, quem sabe, no dia de minha morte. Nasci sozinha em uma quarta-feira fria. Vivi sozinha em um mundo gelado. Escondi-me no escuro, e olhei a viva através da fechadura de uma janela.


Restam-me as letras deixadas, as entrelinhas lidas, o entendimentos dos livros, pois sou tão grande quanto as páginas dos livros que vivo, e tão real quanto as letras que escrevo.
Sou uma louca por viver.
Sou uma louca por continuar vivendo.
Sou uma louca por querer viver.
Sou uma louca.
Vivo.
Vivendo.
Só.

Peripécias da vida

Nada de contos, nada de reflexões sobre os acontecimentos do mundo, nada sobre a minha rotina ou nenhuma resenha de livro. Hoje vou falar sobre mim, sobre a minha vida, e sobre coisas que vocês não, provavelmente, não sabem.

Eu estou doente. São doenças tratáveis, embora o tratamento seja longo e as vezes doloroso. Não é nada que em seis ou oito meses eu já não esteja completamente curada e bem. Para todos os efeitos, o que eu tenho é um parasita no duodeno (canal que sai do estômago) que está causando uma duodenite, uma bactéria no estômago causando uma gastrite e isso tudo causando refluxo. São alguns antibióticos e alguns outros remédios, que as vezes me dão algumas reações adversas. Fora isso, estou gripada, é um gripe que vai e volta nos últimos 7 meses mais intensamente, mas que começou no ano passado. Isso quando não tenho algum outra infecção de garganta, febre ou minha rinite não ataca.

Você deve estar se perguntando porque eu estou falando tudo isso, reclamando um monte da minha vida. Na verdade, não estou reclamando, estou contando o que acontece comigo desde o começo do ano (quando a gastrite apareceu e a gripe piorou), só isso, só constatando. Eu sempre tive uma saúde muito boa, a ponto de quase nunca ter sequer uma gripe, então foi uma surpresa tanto para mim, quanto para meus pais, quando comecei a ficar doente.

Tudo poderia parecer sem explicação, sem sentindo, mas isso porque não estou contando tudo. Desde setembro do ano passado eu estou fazendo psicanalise. Ninguém é tão bem resolvido, ou se conheço tão bem que não ganhe fazendo análise. Ao mesmo tempo que me faz tão bem, pois descubro coisas sobre mim que eu não imaginava ou não queria imaginar, me deixa mal. Me deixa mal porque tanto eu, quanto a psicanlista acreditamos que minhas doenças tem causas psicológicas e não biológicas.

Eu explico, acredita-se que algumas pessoas, quando não estão bem emocionalmente ou psicologicamente, não tem reflexos psicológicos mas biológicos. Quer dizer que a pessoa em vez de ser depressiva acaba tendo gastrite, ou alguma outra doença. Então basicamente toda vez que eu deveria estar me acabando em lágrimas ou algo do tipo, em vez disso eu fico fisicamente doente, e geralmente isso sse manifesta em forma de gripe.

Novamente, porque eu estou falando tudo isso? Ontem, eu tive uma séria conversa com a minha mãe. E mais uma vez eu não consegui explicar ou dizer o que se passa comigo. Meus pais tem sérias dificuldades de entender tudo que acontece comigo, o modo como eu sinto, vejo e faço as coisas. Talvez eu tenha dito, e ela não tenha entendido, não sei. Sei que eu e eles somos diferentes, muito diferentes, e isso é palco de grandes discussões, como a de ontem, onde no final eu me sinto frustrada porque sinto que não consegui dizer diretamente o que se passa e minha mãe não conseguiu entender o que eu estava querendo dizer.

O resultado dessa discussão foi uma manhã de dor de cabeça, uma tarde de tontura, final de tarde com vômitos e estômago ruim, e uma noite no hospital. Chegamos as 20h saímos as 23h30.

Bárbara Bigon, pode se sentar. Dor de cabeça, tontura, gripe, vômitos, estomago ruim. Sentar na cama, descer da maca. Diagnostico do médico, crise de labirintite e crise de gastrite. Receitas e um atestado. Entrega guia pra enfermeira e espera. Os ponteiros do relógio parecem parados. Senta tira metade do casaco. Agulha, algodão, mil preparações. Remédio na veia. Enfermeira está doendo, é normal? É normal, pode ficar tranquila. Dor e tédio. A hora parece não passar. Sala enche e se esvaia. Mãe são 23h30, não aguento mais sentir dor. Calma, vai passar está acabando. Mãe pede pra tirar. Olhos cheios de lágrimas, congelando na sala fria sentindo dor. Enfermeira volta, tudo bem querida pode ir. Chegar em casa é sempre um alivio. Pai, irmão vendo futebol. Subo pro quarto, pijama, escova os dentes, cama.

Pela primeira vez na vida tomei remédio na veia. Senti um monte de coisas estranhas. Mas percebi que certas coisas só fazem sentindo quando se as conhece melhor, mais profundamente. Só quando analisamos melhor uma situação é que entendemos acontecimentos que a primeira vista são ilogicos. Está tudo ligado, e nada é por acaso, é tudo uma questão de se olhar melhor e mais profundamente.

No final, a verdadeira questão é : quanto você é capaz de aprofundar o seu olhar?