Observações cotidianas

Todos os dias, sem falta, ele chega e senta-se a mesma mesa. Um ritual repetido religiosamente, seguindo uma ordem certa. Primeiro os óculos sobre a mesa, seguido pelo lento caminhar até a geladeira, apanha uma das latinhas de cerveja e volta para a mesa, onde um copo já o espera. Ele deve ter entre 60 e 70 anos, não sei ao certo, poderia ter 80 e ainda sim eu não teria certeza.
Entre 11h e 12h todos os dias, ele está lá, sentado na mesma mesa, bebendo sua cerveja, com o olhar perdido de quem tem muitas perguntas e algumas tragédias. A cada gole, seu olhar vaga pela padaria, geralmente vazia a aquela hora, sem se demorar em ninguém. Me pergunto por quais tragédias esse senhor teria passado, que momentos tristes teria vivido, para ao final, se postar de forma tão melancólica?
Vejo nele, uma infinidade de perguntas, de meias respostas, de anseios, é quase como se durante toda sua vida nunca tivesse parado para olhar em volta, e agora ao final, esse senhor tenta, responder e entender toda sua vida. Talvez tivesse perdido sua mulher, quem sabe um filho, ou então fosse sozinho, e agora ao final se dá conta de que todo sua vida já passou. Como se somente agora percebesse que sua vida passou e aconteceu, e se dá conta de todas as palavras que não disse, de todas as coisas que não fez, de todas as perguntas que não criou, de todas as respostas que não procurou, e notasse ainda, que não há mais tempo para nada, pois lhe restam pouco anos, talvez meses de uma vida vivida pela metade.
Penso nas histórias que ele poderia me contar, de sua infância longínqua, uma juventude esfuziante, um casamento arrebatado, alguns anos difíceis outros de bonança, criar os filhos, prosperar, crises, ditadura, liberdades, brigas com o pai, fugas. Imagino tantas histórias, tanta vida por atrás daqueles olhos tristes. Quem sabe até um grande amor, uma tristeza profunda, ou será um amor perdido? Tantas possibilidades por de trás dos olhos calados, que nunca fixam alguém e parecem ver apenas um passado perdido, uma vaga lembrança.
Eu posso estar completamente enganada, e o olhar melancólico e bago seja apenas devido ao excesso de álcool para um corpo gasto. Talvez não tenham respostas ou perguntas suspensas, não existam grandes tragédias ou um profundo sofrimento, talvez sequer exista um pensamento. Pode ser que seja apenas um velho bêbado enchendo a cara na padaria da esquina no meio do dia e não haja nenhuma história a ser contada.
Jamais saberei enfim, pois apesar de vê-lo todos os dias, sentado sozinho em sua mesa, olhando ao longe pelas grades da janela, jamais perguntei-lhe nada, sequer o nome. Nunca tive coragem de interromper seus pensamentos, tristezas ou bebedeira. Fico então com as histórias que criei para ele, os pensamentos que lhe supus, as verdades que lhe inventei, a bebedeira e vazio que coloquei em sua vida. Minha curiosidade de saber a verdade sempre se perde em meio aos pensamentos, talvez seja melhor ter apenas a ideia.