Menino e seu pai

Eles eram felizes juntos e ficaram ainda mais felizes com a grande descoberta, seriam três e não mais dois. Veio o primeiro chute, o primeiro banho, a primeira palavra, e tantas outras primeiras vezes que eles mal conseguiam contar. O tempo passou, e o pequeno cresceu, e com o tempo cresceu também a vida deles, a responsabilidades, o trabalho, as contas, a pressa, a pressão, a falta de tempo.

Logo, com o tempo, o pequeno corria para receber o pai, feliz por reencontrá-lo depois do dia separados, mas como todos os dias, o pai, depois de um sorriso cansado e um cafuné nos cabelos do pequeno desculpou-se “Tinha trabalho a fazer”. Todos os dias a mesma epopeia se repetia e sozinho o pequeno ia, brincar solitário com os brinquedos que não respondiam, não contavam histórias, não faziam carinho, não beijavam, não abraçavam e só estavam ali.

Os dias se tornaram meses, e os meses se tornaram anos, e a noite ao dormir o pequeno, que agora estava grande, abraçava e beijava o pequeno ursinho com quem havia brincado durante toda a sua infância. E nos corredores da mesma casa, via passar aquele estranho parecido com ele próprio. Eles diziam “Olá” e “Bom dia”, mas no fundo não sabia dizer quem eram, ou o que faziam, ou o que queriam, ou com o que sonhavam.  Mesmo o cachorro, aquele ser esquisito que não falava sequer a mesma língua que ele, era mais próximo do coração do menino.

Em um desses dias de idas e vindas pelo corredor da casa, o velho pai parou e encarou os olhos do estranho que havia criado e segurou seu rosto, aquele que tinha os mesmo olhos que ele, a mesma cor do cabelo e formato do rosto, um reflexo perfeito de quem havia sido. E ao olhar bem para os olhos daquele homem, percebeu que não conhecia a mente e o coração por trás, não sabia quais eram os sonhos e desejos, não conhecia as aspirações, medos, vontades nem mesmo se lembrava do som da risada dele.

Por um segundo suspenso, o pequeno agora um homem, esperou ansioso pelo momento no qual o pai iria convidá-lo para algo, qualquer coisa que seja, iria abrir um sorriso e conversar com ele. Mas o segundo passara e com ele o momento, o velho balançou os cabelos, soltou as mãos do rosto de seu espelho passado e continuou seu caminho pelo corredor. O jovem homem acompanhou com os olhos enquanto o outro mais velhos descia corredor abaixo. Ele era seu herói, seu ídolo e um estranho.

“O tempo só nos dá uma única chance para viver, não há voltas, não há refazer, não há apagar e fazer de novo. Aproveite bem a sua chance, antes que acabe o seu tempo. Nossas vidas são aquilo que fazemos dela.”

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Entre amor e amizade

“Eu não te amo”. A frase parecia simples, a implicação nem tanto. Embora fosse uma verdade que ambos conheciam assumi-la em voz alta era confirmar sua veracidade e ele não sabia se poderia suportar ouvir aquela verdade. Sabia daquilo, sempre soubera daquilo, apenas não gostava de lembrar daquilo. Suspirou e encarou-a nos olhos, procurando algum vestígio de mentira, de ironia, de sarcasmo, de qualquer coisa que não fosse verdade.

Mas no olhar tão conhecido, encontrou apenas aquilo que mais temia, a confirmação da verdade, da certeza, sem a menor sombra de algo por perto. Conheciam-se há tanto tempo, tantos anos, quantas histórias… era impossível dizer ao certo. Levantou-se da cama, e com um último olhar deixou o quarto. Sabia que ela sofria por fazê-lo sofrer, mas enquanto o via deixar o quarto não vacilou em seu olhar, pois sabia que se vacilasse, seria pior.

Era um amor destinado a ser fraterno, e não poderia ser nada alem disso. No começo, talvez houvesse uma chance, mas não depois dele. Aquela pessoa havia sido o começo de uma mudança que ele não conseguia sequer imaginar. Pois antes dele haviam existido muitos eles, mas nenhum que causasse alguma mudança. Mas ele mudou tudo, mudou inclusive ela, principalmente ela. No momento que os dois se conheceram, e ela decidiu que o queria, tudo havia mudado.

Sempre se encontravam sem querer, sem realmente planejar, simplesmente ao acaso. Descobriam aquela banda em comum, um autor preferido que compartilhavam, aquele lugar no bosque que ambos adoram e não vão desde crianças, um desenho não muito conhecido que amavam e ainda sabem cantar a música da abertura. De longe via desesperado aquele conhecimento entre eles aumentar.

De perto percebia sua relação com ela alterar-se completamente. E não sabia o que fazer, o que pensar, o que sentir. Era seu melhor amigo, quem a conhecia melhor, quem estava sempre com ela, mas o coração dela não pertencia a ele. Namoravam mas não eram namorados, eram amigos. Não havia amor, paixão, mas havia. Amava-a como não seria capaz de amar nenhuma outra mulher.

O único fio que ainda restava era o fato de que ele não a queria. Todos os dias agradecia por isso ainda não ter acontecido, por ela ainda estar com ele e não com o outro. A sombra do medo o perseguia a todo instante e a cada encontro, o pensamento de que cedo ou tarde ele iria querê-la. Quando acontecesse, não haveria volta, e não houve.

Naquela manhã fria e cinzenta, as preferidas dela, com um sorriso nos lábios mas não no rosto, um semblante sério, nada típico dela, chamou-o delicada, olhou-o nos olhos e contou. Contou tudo o que ele não queria saber, mas ela queria contar. Ele ouviu tudo a contra gosto, mas no final veio o pior, o ultimato, sem volta, sem retorno ou sequer uma saída de emergência.

“Você sabia, eu não te amo”. “Eu não te amo”. “Não te amo”. Não”. A frase parecia simples, a implicação nem tanto. Formada com um conjunto de palavras pequenas, mas que postas juntas geravam um significado muito grande. Não havia para fazer, e por isso deixou o quarto, olhou para atrás apenas para confirmar e, quando teve certeza, deixou apenas a tristeza tomar conta e as lagrimas caírem sem deixar que ela visse. A ausência dela estava ali, ali ficou e nada a curaria.

Não sei

Olhou para ele com uns olhos que não eram seus. Não eram porque não poderiam ser, não lhe pertenciam, não aquela tristeza profunda de uma alma ferida. Olhou muda, porque não poderia falar, como diria a alguém que amava profundamente que não poderia dividir seus segredos mais profundos com ele? Queria, mas não poderia, ele não tinha forças ou a estrutura para lidar com suas angustias, uma mente perturbada pelo sótão e pelo porão da sociedade.

Era e sempre fora uma alma conturbada, levada a extremos, habituada a inquietude. Não poderia nunca ser diferente, não que não quisesse, era um de seus maiores desejos ser diferente do que era. Mas não poderia, devido a natureza de seu ser. Em seu âmago estava a raiz do pensamento. Tão profunda, tão densa, quanto uma abscissa, não poderia e não seria facilmente retirável de si, sendo um pilar edificador de si mesma.

O pensamento que a levava a angustia, a tristeza, a dor física, era o mesmo que a fazia levitar e transcender, elevar-se, não aos céus que estão vazios, mas ao homem, que está cheio, que é real e presente. Nada e tudo estavam dentro dela, o horror e o maravilhoso, os dois lados. Como explicar a alguém? Como dizer, eu não sei? Pois era, acima de tudo, formada de incertezas, de questões, de confusões, de teorias. Não tinha respostas, nenhuma delas, não para si mesma, pois queria sempre atingir o verdadeiro, o imutável, o concreto e a certeza, embora soubesse que nenhuma dessas coisas poderia existir (na verdade não tinha certeza sobre isso também). Poderia dar aos outros mil respostas, e eles acreditariam, pois não tinham a sua alma desesperada que se agarra em incertezas para não padecer em loucura. Tinha respostas para aqueles que não eram permeados por dúvidas.

Para ela, alma fadada a pensar, não tinha nenhuma, nenhum conforto, nenhum alento, nada. Tinha fome de respostas, fome de saber, e nada com o que saciar suas necessidades. Há aquelas como ela,  mas eles estão longe do mundo, que não quer respostas e não se importa com elas, eles estão solitários em sua busca, uma alcatéia de pensadores errantes.

Ele a olhou mais uma vez, inquisidor, aproximou-se, tomou-lhe a mão com ternura e olhou-a demoradamente nos olhos, como se quisesse de alguma forma, entrar-lhe na alma e descobrir quais feridas abrasadoras atormentavam a mente da garota. Ela piedosa, sustentou o olhar, em um último pedido suplicante de ajuda, que nunca chegaria. Deixou que ele olhasse e procurasse, quem sabe acharia em uma ruga de suas pálpebras, em uma pintinha de sua Iris, a razão de seu tormento. Mas ele não conseguiu passar pela janela e mergulhar no poço, não entrou e não viu, não achou. Sua alma continuou lá, por trás de seus olhos grandes, angustiada, e ele continuou ali, na sua frente, sem resposta.

Ela por outro lado, encontrou várias, olhando nos olhos sinceramente preocupados do rapaz a sua frente, achou carinho, achou medo e incerteza, achou também ali no canto a alma dele. Era uma bela alma, simples, leve, como as notas soltas do violão que ele sempre levava consigo. Não menos complexa e única por isso, apenas, diferente e leve. Era renovador e refrescante tê-lo junto a si. Ela quase poderia esquecer os pensamentos sombrios que lhe rondavam a mente e corroíam a alma.

“Eu não entendo” – ele sussurrou, e ela riu, não riu dele, riu dela. Ela sorriu e acariciou-lhe o rosto enquanto uma única lagrima solitária lhe marcava a face. “Nem eu” – ela sussurrou de volta.

A estranheza da situação e a familiaridade do sentimento a faziam rir da ironia. O silencio, segredo dos íntimos, era tudo o que os aproximava naquele momento, a ponte que os mantinha juntos. Não saber era o que fazia permanecer ali, tão pertos, tão unos. Não saber era, também, o que os estava afastando e os mantendo longe, pois ela não sabia sozinha, e ele não tinha opinião formada a respeito, já que não se importava em pensar sobre. Realmente fazer algo juntos, era, na verdade, o que os unia.

No rádio a música deles começava a tocar, e a voz calma de George Harrison preencheu o vazio deixado pelo silencio. O momento deles juntos já havia passado, e o silencio já havia se desfeito, ele sorria ao olhar para ela, seus pensamentos soprados para longe do “não saber”, os dela não. Ele a trouxe para mais perto, como sempre acontecia quando essa música tocava. Ela não cedeu como geralmente acontecia quando aquela música tocava.

Não, depois de dois anos, depois de tanto tempo, depois de tudo. Era tão leve estar ao lado dele, tão bom, era comum, normal e natural. Mas seus demônios pediam sangue e sofrimento, e não há sofrimento maior que o de pensar. A calma que a habitava nos últimos dois anos não iria continuar, todo o progresso que havia conquistado, toda a melhora, a levava agora a um outro lugar, mais alto, mais difícil de ser alcançado. Não iria regredir, não era essa a questão, apenas havia percebido que o pico era mais alto, e ficar parada a inquietava, precisava subir mais alto, não precisa conseguir, mas se obrigava a tentar.

Outras lagrimas caíram, e o sorriso dele se desfez. Ela não disse, não diria, ela nunca dizia, e ele sabia, a conhecia bem, não profundamente, mas bem. Um último adeus dava forma em um último beijo, que não sela um final, mas um novo começo, uma outra história. A de hoje começa com um último beijo, um olhar de até logo, algumas lagrimas, um “não sei” perdido no ar, e uma porta se batendo. Ela termina, em algum dia, em alguma hora, por ai, perdida no tempo de si mesma, forjada nos moldes que construiu para si, imperfeita.

Sons de uma vida

Não era exatamente uma questão de sentimentos ou de pessoas, talvez de memórias mal acabadas e histórias mal contadas. Mas era, definitivamente, uma questão de sons. A porta do carro batida pela única mão livre, enquanto a outra tentava equilibrar uma pilha de livros, a maleta e um copo de café. O toque do alarme preso em meio aos dentes que lutavam para acioná-lo, o som abafado de pés se desequilibrando ao atravessar a rua, o encontro da maleta surrada no portão, o som enferrujado do trinco sendo aberto, uma ou duas folhas de papel voando perdidas enquanto o último gole do café frio se perde em meio ao caminho até a porta de entrada.

Eram os sons habituais da casa velha, os ruídos de sua rotina, que a faziam sentir-se em casa. Pela janela do quarto, sempre aberta, vivia e ouvia os arredores da antiga casa da avó. Embora não ouvisse toda a história, fragmentos dela sempre se perdiam em meio o vento e a fumaça do esquecimento. Talvez a única lembrança inteira que tinha era do som do piano suavemente tocado pela avó quando era menina. O som das cordas sendo batidas tomavam a casa e sobrepunham todos os outros sons.

Tornou-se um habito com o passar do tempo associar sua vida, seus momentos aos sons, a música. Os pedais roçando na corrente, a janela castiga pela chuva, as unhas do cachorro arranhando o piso de madeira. Tateava cegamente procurando uma ordem, por um sentido, um acorde e uma melodia que fizesse suas notas esparsas terem sentido, contassem uma história, compusessem sua vida.

Se fosse contar sua história atual, contá-la-ia do final.

Um grande estrondo, uma pancada seguida pelo som ensurdecedor dos aplausos finais de um espetáculo. Não que houvesse um espetáculo, sequer havia uma peça, era, realmente, um monologo. Mas a sensação era essa, o sentimento era estrondoso, pesado, forte, destoava do restante da canção. Meu monologo começava com o som corriqueiro de um abrir de portas, era um bem-vindo, um bom começo. A porta realmente existia, o bom começo também. Atrás da porta não existia, porém, nada.

A confusão de sons e memórias são cartas embaralhadas de um carteado, soltas, difusas, uma chance em cinqüenta e duas de pegar a certa. O refrão era o som conjunto e confortável de mãos que se encontram, do colchão que afunda, de lençóis jogados no chão, o roçar do tapete no meu chinelo velho, o rangido da rede sobrecarregada, o balanço do jardim que sede com o meu peso, as flores do pergolado que dançam com o vento, as xícaras de café pousadas sobre a mesa abandonada da cozinha, a televisão ligada sozinha na madrugada, o ressoar da sua respiração no frio, os risos abafados pela vergonha. Sinfonias compartilhadas e momentos somados, não a uma, mas a várias pessoas.

Diria então que agora é hora de uma pausa, um silêncio. Nas memórias e na música, porque algumas coisas só a sobriedade do silêncio é capaz de expressar. Cinco segundos é muito tempo, um piscar de olhos é uma eternidade, uma batida do coração toda uma era. Foi como se tudo se suspendesse, foi um adeus com sabor de até logo.  Uma construção complexa e confusa que começa a tomar forma e sentido, as peças embaralhadas organizam-se, as cartas põem-se em ordem. A lógica inegável de um processo aparece no horizonte da minha alma.

Minimamente ruídos imperceptíveis e indispensáveis começam a somar-se ao todo. O roçar da grama nos pés descalços, as folhas secas amontoadas a um canto, o espirrar do vidro de perfume no quarto ao lado, o calor do bolo que exala da cozinha, a bruma da manhã que condensa o orvalho, a neblina da noite que esfumaça a janela, os pios do filhote de coruja que vela a lua. Tão pequenos como eu mesma sou pequenina, tão imperceptíveis e suaves como eu mesma, ocultos pela imensidão de um mundo que se perde em si mesmo. Tímidos sons que me formam, me integram, me descrevem. E que encerram, em mim (e na música) seu fim seu princípio, enterram em mim o que são e o que sou, guardam do mundo insentimental a pureza de meus defeitos.

Ouço os sons lá fora, não fora da janela (que me integra tão bem) mas fora de mim. Tão altos, tão brutos e ruges, o rugir dos carros, o insano tintilar das moedas, o apito da registradora, o bater dos cabides, roupas raspando na pele áspera e impregnada de fumaça, nada parece natural ou integrado, é tudo tão impessoal. O folhear das páginas ácidas das revistas, os gemidos insanos da televisão, o chiar alternado do rádio, tudo tão apessoal e robótico, sequer precem vozes humanas, ou tanto pessoas reais, são apenas fabricados.

Uma borboleta bate asas na janela fazendo as folhas soltas rodopiarem pelo quarto, até caírem dançando até o chão. Da cama, deitada, olho de resvalo à bagunça formada sobre o tapete. Ignoro. Estico-me e coloco (delicada) a agulha sobre o disco de LP, ruído amigo que me convida a lembrar. O som antigo, um clássico, começa a tocar, e não estou mais em meu quarto, mas nas ruelas de Londres, é outro lugar, um outro tempo. Levanto-me sobre o protesto das folhas de papel, procuro na estante algo para combinar com o som que vibra da vitrola. Um filme antigo, em preto e branco, na antiga Nova Iorque, quando tudo parecia mais bonito e elegante por atrás da fumaça de cigarros e piteiras e vestidos pretos e homens pagavam pelo toalete das senhoritas.

O som do calor exalado pelo bolo começa a espalhar-se pela casa, não é o mesmo de minha infância, já que os sinos fúnebres da igreja há muito já tocaram pela partida de minha avó, mas meu pai (alfa solitário dessa alcatéia de dois) o faz tão parecido, é quase o mesmo som sabor. O estalar do aparelho me avisa do começo do filme, jogo-me na cama afundando-me entre os travesseiros e lençóis. O vídeo chia, a vitrola estala, o mundo se cala.

 

Roupas jogadas

Ela enrroscou-se preguiçosamente nos lençois. Abraçou-o carinhosamente. Sorriu. O sol entrava fracamente pela janela semicerrada tocando-os calidamente. Se não fossem aqueles momentos, ela com certeza enlouqueceria. Olhou-o. Ele ainda dormia placido. Era uma bela visão. Assim quietinho, calmo, dormindo. Quem visse a fera que era nas madrugadas não acreditaria no anjinho que repousava sobre ela. Mas ele não durmiria para sempre, assim como ela não poderia ficar para sempre ali. Descobriu-se lentamente. E esgueirou-se silenciosa para fora da cama. Entre a profusão de roupas e almofadas procurou por sua calcinha e por seu vestido. Em pouco tempo teria que passar em casa, arrumar-se e voltar para sua vidinha. Com o pai mandão. O noivo desatencioso. O trabalho insuportavel. A mãe apatica. Voltaria para ser uma sombra que segue e obedece. Um fantasma que ri e faz o que deve. Como gostaria de ser livre e poder fugir de tudo aquilo que a aprisionava. Mas não podia. Ela sabia que por mais que quizesse aquela era sua vida. Por mais infeliz que fosse. Um suave ronco veio da cama. E ela olhou-o enternecida. Ao menos, ele estava ali. Não era muito. Mas era o suficiente para que ela continuasse a acreditar que estava viva. Ele a fazia viva. Ele a tornava algo mais que uma sombra. Ele a transformava em gente. Nas poucas horas que tinham por semana. Ela era viva. Ela era amada. Pena que isso não poderia ser real. Pena que a vida não podia segui-la para fora daquele quarto e apoderar-se dela. Pena que suas estrelas e seu céu ficariam eternamente presos por uma noite. Já a porta, ela virou-se para ele. Que acordava manso. Sabia que tinha que apressar-se. Caso ele a encontra-se, a fera iria querer retornar a ação, e então ela se atrasaria. Criaria tantos problemas. Exigiria tantas explicações. No momento, ela sentiá-se rebelde e viva. E quando ele sorriu-lhe sincero e indicou o espaço vazio da cama ela parou. Segurava firmemente a maçaneta. Sua rebeldia agora vacilante. Olhava para a apatia que a esperava porta a fora e encarava a vida que se encontrava porta a dentro. Ele cansou-se. Descidiu-se por ela. Levantou com impeto. Segurou-a com força. Arrastou-a para a cama. E suas roupas perderam-se na profusão do chão. E eles enroscaram-se nos lençõis. E o dia viu-os. E tudo o mais se perdeu.

Descobertas

Dobrou cuidadosamente as páginas e colocou-as de lado. Deixou-se cair ali, em meio a profusão de almofadas. Não via o teto. Não via a janela, nem via o céu. De olhos fechados via apenas ele. Suspirou e riu. Ria de si mesma. Ria de sua tolice infantil. Ria sobretudo do sentimento ingenuo que nascia e crescia a cada leitura, a cada olhar a cada sorriso.
O celular começou a tocar insistente a seu lado. Ignorou-o. Sabia quem era, e ainda mais, sabia que não era quem queria que fosse. Ele não ligava, nunca ligava. Apenas o outro, sempre o outro. A musica programada para o número dele tocou novamente. Resignada, atendeu, mecanicamente.
Ele sempre lhe ligava, tão atencioso. Sorrindo, brincando, fazendo-a rir. Eram tão parecidos em certas coisas. Tão proximos. E distantes. Ele não a fazia imaginar e sonhar como o outro. Não a fazia suspirar e desejar. Estavam juntos a três semanas, e mesmo assim, era naquele que seus labios nunca havia tocado em quem pensava, com quem sonhava.
E já estava sonhando acordada de novo. Com ele de novo. Desligou o celular e jogou-o a um canto. Sairia com ele, novamente. Já esperava por aquilo. Afinal saiam juntos sempre. E seria outra noite perdida entre beijos e sussuros, para adormecer pensando em outro.
Esticou o braço e pegou novamente as folhas de papel. Os textos, os poemas, os contos, as palavras, as virgulas e os pontos. Tudo transmitia-o inteiramente. Eram, cada uma das linhas, uma confissão de si mesmo. E a cada confissão dele, ela apaixonava-se mais. E a cada conversa rapida pelos corredos, ela apaixonava-se mais. E a cada sorriso de longe. E a cada troca de olhares escondidos. Sua imaginação voava levada pelas ideias de um. Seus braços agarravam-se levados por beijos de outro.
Seu pobre coração esmigalhado, só deixava-se levar, desejando acima de tudo, juntar dois homens em um só. Consiliar as ideias aos braços. E beijar os labios daquele que a faz voar. E voar nas ideias daquele que a faz beijar.
O celular tocou novamente. Era ele. Bufou irritada, sempre ele, na hora errada. Brigaram. De novo. Por um outro motivo bobo. E acertaram-se novamente. Por um beijo ardente. E ao deitar de noite sonhou com letras, versos e prosa de uma presença ausente.
Largada pelas almoçadas, deixava o vento bater-lhe a fronte. Levar embora a confusão, e clarear-lhe a decisão. Pesava. Sentiá-se traindo. Aos dois. Sentiá-se suja. Estar com um enquanto sonhava com o outro. Querer um enquanto a mente entregava-se a outro. Tão diferentes entre eles. Tão parecidos com ela. A confusão dentro dela tão grande. Espremida no peito por tanto tempo. E por não aguentar mais. Uma gotinha de dor escapou, e foi escorrer rosto a fora, brincar com o vento e dançar-lhe nos lábios. O gosto doce e amargo da incerteza.
A campainha tocou. Devia ser ele. Vierá buscá-la para saírem. Levantou-se, deixou as almofadas, companheiras consoladoras, e parou frente ao espelho, inimigo revelador. Os olhos inchados. O nariz vermelho. A boca brilhando. Estavam todas ali, as evidencias de um sofrimento contido. Escondeu-os com maquiagem. Arrumou-se, pegou a bolsa e saiu.
Saiu para ver que se enganara. Não era um e sim o outro. O coração disparado a porta. Congelada pela surpresa de ve-lo ali. Marcado tão claramente pelos mesmo sintomas de sua doença. Ele sorriu ao ve-la. Sempre sorria. Delicadamente ergueu a mão e tocou-lhe o rosto. Secou-lhe uma lagrima. Ela riu, não escondera tão bem assim os sinais de sua luta.
Cegos e sem direção, os corpos de aproximaram. Inexperientes nas mãos um do outro. O primeiro toque. O primeiro sussurro. E ao estar bem perto (podia mesmo ver as ruginhas dos olhos, os cilios bagunçados, as pintinhas no olhar) fechou os olhos em uma alegria muda. E em uma esperança sussurante, os braços e lábios experimentaram juntos voar. E acompanhar as mentes que seguiam adiante.
Agarrada as letras, aos lábios e ao homem. Voou.