Irmãos

Tudo na minha vida é em dobro, em dois, duas vezes. Até houve um tempo onde os acontecimentos eram singulares, mas foi a tanto tempo que eu não me lembro. Só lembro dos dois, do duo, da dicotomia constante que vivo, não consigo me lembrar de outra vida na qual o meu negativo não tenha um positivo, e o meu preenchido não tenha um vazio.

São combinações estranhas. Uma vida a dois divida para sempre. Um gêmeo que chegou atrasado. Mesmo dia, praticamente o mesmo horário, como gêmeos mesmo. E essa é a parte engraçada, já que durante muito tempo, não era possível distinguir um do outro. Cabelos iguais, vozes iguais, olhos iguais, alturas iguais.

Quartos divididos, camas, medos, histórias, brinquedos, atenção, cachorro, sofá, televisão, computador, carro, tempo, horário e tatuagem.

Gostos diferentes, ambições, preferências, habilidades, jeitos, tipos.

 

Feliz aniversário para a gente, que divide tudo, até o aniversário!

Passado presente

Sequer o vento se atrevia a interromper, deixando o único som ser o do velho balanço que ela lentamente empurrava. Os pés não deixavam o chão, sempre presos seja pela ponta ou pelo calcanhar. As mãos apoiadas levemente  entre as correntes e o banco velho de madeira, o cigarro queimava livre, acumulando-se na ponta. Seus olhos estavam longe, em locais e tempos passados. A luz da lua refletia sem brilho em seus olhos claros, indo e saindo da luz, protegendo-se nas sombras da antiga árvore e as vezes relevada pela luz da noite. As sombras de um passado distante e do presente enevoavam o semblante pálido.

A claridade da manhã invadia o quarto pelas frestas da janela. Por mais que lutasse contra a claridade a acordava. Segura entre os braços dele não sabia se levantava e partia ou se ficava e aproveitava aquela felicidade fugaz. Era confortável e bom, e em como raras vezes a fazia sentir pertencente. Rendeu-se a ele, ao sono, ao abraço, aos sonhos, e deixou para mais tarde para pensar no trabalho, nas responsabilidades e no que o futuro traria. 

O vazio crescia aos poucos, como o silêncio. Não era a saudade, nem a falta, mas o vazio que incomodava. Já faziam quatro meses desde que ele se fora e todo o drama já tinha passado. A paixão louca, a dor insuportável, a falta de ar, tudo era só algo que tinha acontecido, ao que parecia, a uma outra pessoa. Se sentia satisfeita consigo mesma, a carreira, o mestrado, os amigos, tudo certo. Mas o silêncio ainda estava ali e ainda a incomodava profundamente. 

Ele a puxou para mais perto, mais junto. Beijou sua nuca e acariciou sua cintura. Ela riu espalhando ainda mais os cabelos pela cama. Ele aconchegou-se em meio a seus cabelos, fugindo da claridade do dia. Ela virou-se para ele e beijou-o rapidamente, ele mantinha os olhos fechados ainda sonolento, mas seus lábios já sorriam querendo acordar. O mundo acordava lá fora e eles entregavam-se novamente, antes de ter que enfrentar a dura realidade de novo. 

O começo foi complicado, o primeiro dia insuportável. As malas acumuladas a um canto nunca pareceram tão grandes e espaçosas. A casa nunca pareceu tão vazia. Ele circulou os olhos pelo apartamento buscando algo que tivesse deixado para trás, mas não cruzou os olhos com ela. Pegou sua mochila e saiu. Os pais dele entraram para pegar as malas, sem uma palavra, fazendo cada barulho ecoar pelo andar inteiro. Sentia-se jogada no chão, sem mundo. 

Ele a beijou na porta e ficou vendo-a partir com a mesma roupa que tinha chegado na noite anterior. Os cabelos bagunçados, o sorriso nos lábios e o brilho nos olhos modificavam completamente aquela garota. Com o coração leve e a alma limpa ela voltou para casa, foi para o trabalho, e passou o dia com aquela noite na cabeça. Ansiosa esperou por um sinal, uma palavra uma frase, que nunca veio.

Com o gato de um lado e o cachorro do outro ela ficou no sofá encarando a tv desligada como se fosse a coisa mais interessante do mundo. Não sabia o que fazer. Sequer conseguia chorar, estava abismada demais para aquilo. Seus movimentos eram automático e sem vida, cuidou da casa, dos seus fieis amigos. O sol foi a pino e voltou, e ela ainda estava ali, parada, estática, encarando o nada e tudo aquilo que ficou para trás. 

A segunda noite foi melhor que a primeira, e ela não sabia como isso era possível. Nunca se sentiu tão confortável com alguém em tão pouco tempo. Sentia como se alguém tivesse entregue a ele um manual  de instruções seu. Depois de uma noite rindo e aproveitando a companhia um do outro, ele a pegou no colo e levou para o quarto, de onde ela saiu apenas na manhã seguinte, correndo de volta para a realidade. 

A vida começava a voltar para os olhos dela. Ela quase conseguia respirar de novo. Quase. Fazia um mês que ele havia partido. E só agora alguma coisa parecida com vida começava a voltar para ela. Abriu a porta do banheiro e leu seu lembrete de todos os dias. “Quero ver você na pista da vida dançando sem parar”. Sorriu fracamente. E seguiu para mais um dia. O cachorro e o gato a seguiam pela casa, em cada passo e curva que cada. Seus companheiros mais amigos e fieis. 

A rotina secreta deles repetia-se cada vez mais frequentemente. Era quase assustador como em tão pouco tempo eles já tinham uma rotina juntos. O tempo juntos era cada vez maior. E ela se entregava cada vez mais, sem pudor algum. Um sentimento real começava a nascer das noites de um prazer quase culpado. Como sempre ele a colocou no colo, e perguntou do seu dia, do que tinha feito e do que queria fazer aquela noite. Ele pedia beijos e atenção, carinho e colo. 

A mensagem veio como um soco e liberou tudo que ela vinha contendo a tanto tempo. Chorou como nunca havia chorado. Seu coração partido urrava e gritava por liberdade e compreensão. A raiva e a felicidade andavam juntas, brigando por espaço em sua cabeça. A garganta se fechou de raiva, seu coração deu um pulo de felicidade e o ar sumiu de seus pulmões. “Te quero de volta”, era tudo o que ele dizia. 

Não era a sua intenção, nem o que queria. Mas aos poucos, conhecendo melhor aquele com quem passava a maior parte de suas noites, começou a se apaixonar. Ele era delicado e sensível. Era engraçado e sério. Ele não prendia nem soltava. Seus carinhos e suas paixões combinavam. Mas ao olhar nos olhos dele, se assustava com o vazio que se refletiam nos seus. 

A primeira vez é sempre ruim. Mas esquecem de te contar que a segunda é quase insuportável. A depressão que tinha superado tantos anos antes rondava felina a sua volta, querendo voltar. O desespero de superar a dor do segundo termino e evitar a depressão eram quase gritantes. Mas dessa vez sabia o que fazer, e sabia como fazer. A recuperação foi mais dolorosa e mais rápida que a primeira vez. Reencontrar-se foi quase fácil. Descobrir-se sozinha foi renovador. E a felicidade começava a se instalar permanentemente quando “Eu não consigo te esquecer”, apareceu na sua vida. 

Ele a rodava e rodava. O som do riso conjunto se espalhava pela sala, corredor e quarto. Tudo era preenchido por riso. Mesmo com os olhos vazios a felicidade habitava aqueles momentos. Um par de olhos mais vivos que outros. A música animada os fazia dançar. Aproveitando que ninguém estava vendo, eles faziam tudo o que queriam. 

Como não poderia ir mais para baixo, a terceira vez só a vez subir. Sem mais algemas de seu algoz seu corpo flutuou feliz e livre. O passado se transformou em apenas passado. Os seus olhos sem vida sorriam e possibilidades apareciam em todos os lugares. A verdade era que seu coração havia finalmente se curado, se não de todas, mas da maioria dos machucados e torturas pelas quais havia passado. E quando finalmente colocou um ponto final naquilo, alguém lhe sorriu, e ela conseguiu sorrir de volta. 

As carência curadas, as feridas saradas. Queria mais do que tinham, e não sabia quanto mais poderia receber ou conseguir com ele. Os sorrisos, os olhares, a felicidades, o conjunto dos dois a fazia querer ficar mais tempo. Mas ao olhar nos olhos dele sabia que aquela felicidade escondida era tudo o que poderiam ter. E ela queria mais, queria tudo. Sentou com ele uma última vez, para um último filme. Deitou com ele uma última vez, para uma última noite. Acordou com ele uma última vez, para um último beijo. Explicou o porque e partiu sem dizer adeus. 

Começos eram sempre bons. Mas aquele foi melhor. Um novo começo depois de tantos finais fazia bem para ela. Ainda mais um tão surpreendente. Um tão novo e inesperado. Ela achava que ele sequer a havia notado, e não percebeu que os olhos dele a seguiam a noite toda. Com um frio na barriga e excitação ela saiu para seu primeiro encontro depois de muito tempo. Um tanto nervosa e ansiosa, não tinha certeza do que fazer ou de como agir. 

 

Ao levantar-se o passado e o presente haviam sumido. Apagou o cigarro no chão de terra batida e se levantou. O vento voltando a soprar seus cabelos. Não tinha lágrimas para chorar, não tinha tristezas para sentir, não tinha arrependimento ou culpa para cultivar. Apenas o vento para levá-la aonde quer que fosse.

Algum presente

Sentada na poltrona, enrolada em um cobertor, um cigarro preso entre os lábios pensativos, a caneta vermelha dançava no ar compenetrada em seu trabalho de editar, a caneca de chá ao alcance da mão livre e a fumaça crescia ao seu redor. O cabelo meio preso, meio solto, com algumas mechas ao seu redor esvoaçando enquanto virava a cabeça lentamente acompanhando as curvas das frases.

O sutiã preto rendado, o batom meio apagado e a maquiagem meio borrada. Era um final de dia difícil, mas ainda assim o final. Ela logo largaria suas páginas por editar, trocaria o chá quente por um vinho tinto, faria carinho entre as orelhas do cachorro, andaria descalça pela casa enrolada em seu fiel cobertor, se largaria no sofá do mesmo jeito que estava (sutiã, shorts e cobertor) e entraria nos sonhos com o gato no colo e o cachorro aos seus pés.

Ele só chegaria mais tarde, bem mais tarde. As folhas do dia largadas sobre a mesa ao lado da poltrona, cheias de marcas da caneca de chá e agora seguradas pela caneca. Os cigarros amontoados ao lado, empilhados no cinzeiro. A taça de vinho em cima da mesa de jantar, no meio do caminho entre o quarto e o sofá. E ela… ela aconchegada no sofá dormindo, sem ter (novamente) conseguido resistir aos sonhos ao esperar por ele. O gato continuava servilmente com ela, quase um ursinho de pelúcia enquanto o cachorro esquentava o outro lado do sofá aos seus pés. O cobertor meio jogado meio cobrindo o pijama nada convencional no qual ela acabava dormindo a maioria das noites.

Ele iria estar ali, olhando, imaginando, suspirando. Ela teria se espreguiçado do sonho bom que estava e caído na realidade olhando os olhos dele. O gato pularia e o cachorro o seguiria, indo cada um para sua cama. Ele deitaria-se com ela, no sofá mesmo. Ela o receberia convidativa e quente, de braços abertos. E eles ficariam ali, abraços na penumbra da televisão que brilhava com algum filme. Sem falar do dia cansativo, sem reclamar de algum chefe ou do trabalho, sem pensar, sem planejar nada. Aconchegando-se nos braços um do outro, recarregando as energias, abastecendo as forças e amortecendo a saudade.

Ele teria levantado-se cansado, “vem, é hora de ir pra cama”, ela ainda sonolenta, viraria-se de lado e negaria com a cabeça, espalhando o cabelo em todas as direções. Ele teria rido e a pegou no colo, jogou-a por cima do ombro, fazendo-a gritar de surpresa e rir. Enquanto ela tentaria se libertar, ele a jogaria na cama e a seguiria contente. Os risos e sorrisos dos dois juntos iriam ecoar pela doce noite mansa do apartamento. As sombras aveludadas abafariam levemente o som para que não se propagasse além da felicidade dos dois.

As horas teriam passado desapercebidas e deliciosas para os dois. A luz da lua teria caminhado livremente pelos cantos obscuros do apartamento e saído com a chegada da manhã. Mas nada disso aconteceu. Nada disso foi possível. Por que a realidade aconteceu em algum momento entre a chegada e a partida impedindo que a rotina normal se desenrolasse. Tudo teria acontecido normalmente, se no caminho para casa não tivessem manchado de vermelho vivo a neve fresca e a camisa nova que ela tão amavelmente havia comprado para ele.

A rotina saborosa deles teria acontecido e levando ao mesmo prazeroso fim de todos os dias, se naquele dia a realidade brutal não tivesse requisitado presença na vida dos dois, pintando com medo e terror uma noite de céu estrelado sem nuvens. Mas a realidade, cruel, resolveu se intrometer nos planos deles.

Real love

Some people read stories about real love, and how couple are happy together, and they want that for their lives. And that’s normal. What I think isn’t normal is that they want it now and fast. True love kind lost it meaning because of the amount of “Real True Love Stories” you got books, movies, poetry, music, tv shows and the internet.

People are forgetting that find real love it’s very hard and complicated. They think that will be easy and natural, and the truth is that woun’t. True and real love is not about how easy it is, but how hard you want to dedicate yourself to the love that you have found.  The most important thing about love is dedication, you have to dedicate yourself to the other, and the other must dedicate him or herself to you.

Every relationship have problems, that’s normal, not having problems is the freaky thing. The trick is stop everything else and resolve the problem. Then you can go on and love. Love is about fighting and arguing, but is also about resolving problems and staying together.  That’s love.

Love is just measure by itself. Is’t not about the beauty, the thoughts, the likes or dislikes, the gender or the political views that the other have, but about who he really is. And that’s something you send a life time trying to understand. That’s love, is understand that you will try every day know who you are and who the person next to you, and know that you both will change, and love the person that you were and the person you are now.

You don’t love the body, the ideas, the beauty or the gender. You love the soul that lives inside. I’m not religious, I don’t believe in god or thing like that, for me soul is the something special that makes art, literature, music, big changes, little changes, the creativity that makes things, the one thing that make us humans.

Pelo Interfone

Entrou no bar pianinho, quieta e tranquila. Eles se viram, se olharam, saíram. De mãos dadas pelo parque, ela contou sobre seus sonhos e que ele havia invadido sua vida. Minha valsinha sem graça agora era uma marchinha de carnaval. Seu coração pulava e fazia festa quando ele se aproximava.

Sentados juntos conversavam sobre o novo disco do Tom Jobim, de seu melhor amigo perdido, e que a chamavam de pequena, porque não tinham criatividade para dar apelido. Segura nos braços confiantes dele, ela chorou, finalmente, depois de tanto tempo. Ele pediu pra ela, pra não amar mais ninguém além dele, pois sem ela doeria muito viver.  É sofrimento viver sem você, não me deixa não.

De mãos dadas, juntos eles voaram até as estrelas, um balão de ar quente colorido. Vendo as estrelas caírem de cima, a alegria era tanta. A vida é boa. Chorou então, mas desse vez de felicidade, de explosão. A noite terminou enfim, com eles dois voltando para a terra, para a realidade, e num beijo, os sonhos de desfizeram em realidade.

Partindo

Ela sorriu, mas não era um sorriso leve, ela sorriu um sorriso pesado, impossível de prosseguir, durou apenas alguns segundos, mas ainda assim era um sorriso. O primeiro em meses. A tosse interrompeu o pequeno e pesado sorriso, a tosse sempre interrompia tudo. Cada frase, cada palavra, cada suspiro. 

Com igual dificuldade ela ergueu a mão em direção a irmã, que trazia pesadas lágrimas nos olhos, esta segurou a pequena e pálida mão entre as suas e sorriu um sorriso triste. O mesmo sorriso que sorria a meses. A irmã sentou-se na beira da cama, com a mão da irmã bem segura entre as suas e entre sussurros elas conversaram. As pausas eram grandes e dolorosas, a voz da pequena era apenas um fio, uma brise de outono em meio a uma grande tempestade de inverno. 

A garota na cama, a mais velha das irmãs, estava pálida, frágil e quebradiça, os médicos não encontravam solução para a doença dela, nem mesmo uma doença para culpa. Não que isso preocupasse a pequena, ela balançava levemente a cabeça e sorria. Ela sabia que sua doença era uma doença do coração. 

Estava triste, com saudade, chateada, seus sentimentos eram tão grandes e intensos que seu pequeno corpo não resistia e sucumbia ao peso deles. Ela lutava todos os dias por um sorriso, uma risada, qualquer coisa que a fizesse se sentir bem, feliz novamente. Mas o mundo parecia morto a seus olhos, nada brilhava, nada tinha cores, ela vivia em um imenso mundo preto, branco e mudo.

Os dias passariam iguais se não fosse por sua tosse que piorava, ela não comia, não dormia, passava os dias deitada ou vagando pela casa, e a única coisa que a seguia era sua tosse, incessante, drenando a cada inspiração um pouco mais da saúde da garota, até que não restou mais nada.

Deitada na cama, completamente vazia de vida, era apenas um corpo que sobrevivia dia a dia. Sua irmã segurava firmemente sua mão, na esperança que um pouco da antiga vida voltasse aos olhos dela. Sem nunca deixar seu lado, a irmã ficou, a cada noite de tormenta e a cada dia de pesadelo, até que toda a tristeza fosse embora, até que a felicidade voltasse, até que a vida se instalá-se novamente naquele olhos que tanto amava.

Menino e seu pai

Eles eram felizes juntos e ficaram ainda mais felizes com a grande descoberta, seriam três e não mais dois. Veio o primeiro chute, o primeiro banho, a primeira palavra, e tantas outras primeiras vezes que eles mal conseguiam contar. O tempo passou, e o pequeno cresceu, e com o tempo cresceu também a vida deles, a responsabilidades, o trabalho, as contas, a pressa, a pressão, a falta de tempo.

Logo, com o tempo, o pequeno corria para receber o pai, feliz por reencontrá-lo depois do dia separados, mas como todos os dias, o pai, depois de um sorriso cansado e um cafuné nos cabelos do pequeno desculpou-se “Tinha trabalho a fazer”. Todos os dias a mesma epopeia se repetia e sozinho o pequeno ia, brincar solitário com os brinquedos que não respondiam, não contavam histórias, não faziam carinho, não beijavam, não abraçavam e só estavam ali.

Os dias se tornaram meses, e os meses se tornaram anos, e a noite ao dormir o pequeno, que agora estava grande, abraçava e beijava o pequeno ursinho com quem havia brincado durante toda a sua infância. E nos corredores da mesma casa, via passar aquele estranho parecido com ele próprio. Eles diziam “Olá” e “Bom dia”, mas no fundo não sabia dizer quem eram, ou o que faziam, ou o que queriam, ou com o que sonhavam.  Mesmo o cachorro, aquele ser esquisito que não falava sequer a mesma língua que ele, era mais próximo do coração do menino.

Em um desses dias de idas e vindas pelo corredor da casa, o velho pai parou e encarou os olhos do estranho que havia criado e segurou seu rosto, aquele que tinha os mesmo olhos que ele, a mesma cor do cabelo e formato do rosto, um reflexo perfeito de quem havia sido. E ao olhar bem para os olhos daquele homem, percebeu que não conhecia a mente e o coração por trás, não sabia quais eram os sonhos e desejos, não conhecia as aspirações, medos, vontades nem mesmo se lembrava do som da risada dele.

Por um segundo suspenso, o pequeno agora um homem, esperou ansioso pelo momento no qual o pai iria convidá-lo para algo, qualquer coisa que seja, iria abrir um sorriso e conversar com ele. Mas o segundo passara e com ele o momento, o velho balançou os cabelos, soltou as mãos do rosto de seu espelho passado e continuou seu caminho pelo corredor. O jovem homem acompanhou com os olhos enquanto o outro mais velhos descia corredor abaixo. Ele era seu herói, seu ídolo e um estranho.

“O tempo só nos dá uma única chance para viver, não há voltas, não há refazer, não há apagar e fazer de novo. Aproveite bem a sua chance, antes que acabe o seu tempo. Nossas vidas são aquilo que fazemos dela.”

Entre amor e amizade

“Eu não te amo”. A frase parecia simples, a implicação nem tanto. Embora fosse uma verdade que ambos conheciam assumi-la em voz alta era confirmar sua veracidade e ele não sabia se poderia suportar ouvir aquela verdade. Sabia daquilo, sempre soubera daquilo, apenas não gostava de lembrar daquilo. Suspirou e encarou-a nos olhos, procurando algum vestígio de mentira, de ironia, de sarcasmo, de qualquer coisa que não fosse verdade.

Mas no olhar tão conhecido, encontrou apenas aquilo que mais temia, a confirmação da verdade, da certeza, sem a menor sombra de algo por perto. Conheciam-se há tanto tempo, tantos anos, quantas histórias… era impossível dizer ao certo. Levantou-se da cama, e com um último olhar deixou o quarto. Sabia que ela sofria por fazê-lo sofrer, mas enquanto o via deixar o quarto não vacilou em seu olhar, pois sabia que se vacilasse, seria pior.

Era um amor destinado a ser fraterno, e não poderia ser nada alem disso. No começo, talvez houvesse uma chance, mas não depois dele. Aquela pessoa havia sido o começo de uma mudança que ele não conseguia sequer imaginar. Pois antes dele haviam existido muitos eles, mas nenhum que causasse alguma mudança. Mas ele mudou tudo, mudou inclusive ela, principalmente ela. No momento que os dois se conheceram, e ela decidiu que o queria, tudo havia mudado.

Sempre se encontravam sem querer, sem realmente planejar, simplesmente ao acaso. Descobriam aquela banda em comum, um autor preferido que compartilhavam, aquele lugar no bosque que ambos adoram e não vão desde crianças, um desenho não muito conhecido que amavam e ainda sabem cantar a música da abertura. De longe via desesperado aquele conhecimento entre eles aumentar.

De perto percebia sua relação com ela alterar-se completamente. E não sabia o que fazer, o que pensar, o que sentir. Era seu melhor amigo, quem a conhecia melhor, quem estava sempre com ela, mas o coração dela não pertencia a ele. Namoravam mas não eram namorados, eram amigos. Não havia amor, paixão, mas havia. Amava-a como não seria capaz de amar nenhuma outra mulher.

O único fio que ainda restava era o fato de que ele não a queria. Todos os dias agradecia por isso ainda não ter acontecido, por ela ainda estar com ele e não com o outro. A sombra do medo o perseguia a todo instante e a cada encontro, o pensamento de que cedo ou tarde ele iria querê-la. Quando acontecesse, não haveria volta, e não houve.

Naquela manhã fria e cinzenta, as preferidas dela, com um sorriso nos lábios mas não no rosto, um semblante sério, nada típico dela, chamou-o delicada, olhou-o nos olhos e contou. Contou tudo o que ele não queria saber, mas ela queria contar. Ele ouviu tudo a contra gosto, mas no final veio o pior, o ultimato, sem volta, sem retorno ou sequer uma saída de emergência.

“Você sabia, eu não te amo”. “Eu não te amo”. “Não te amo”. Não”. A frase parecia simples, a implicação nem tanto. Formada com um conjunto de palavras pequenas, mas que postas juntas geravam um significado muito grande. Não havia para fazer, e por isso deixou o quarto, olhou para atrás apenas para confirmar e, quando teve certeza, deixou apenas a tristeza tomar conta e as lagrimas caírem sem deixar que ela visse. A ausência dela estava ali, ali ficou e nada a curaria.

Dia do homem?

Me parece, eu não sei, mas me parece que as pessoas esqueceram o motivo do porque existe um Dia da Mulher, ou o Dia do Índio ou o da Consciência Negra. Esses dias existem para que as pessoas prestem atenção nessas  parcelas da sociedade.

Esses dias existem para que as pessoas reflitam sobre  o que eles sofreram, em todos os seus direitos e dignidades que foram massacrados. Esses dias não existem para comprar presentes e ter um dia diferente na escola. Bom, esclarecido isso, porque eu realmente acho que existia uma dúvida sabe, podemos passar para o próximo tópico. A criação do Dia do Homem.

Criaram o Dia do Homem, eu me pergunto… PRA QUE DIABOS? Para que a sociedade reflita sobre os abusos que eles sofreram? As injustiças as quais são obrigados a aturar ? OH WAIT… eles não sofreram abusos, eles não sofrem injustiças…. Porque bom, eu acho que não restou dúvidas sobre o porque de existir esses dias comemorativos, então porque o Dia do Homem?

Não vou colocá-los em um cruz e culpá-los por todos os problemas do mundo, mas também não posso passar a mão na cabeça e dizer “Sim, sim meu querido, você é especial e merece isso”. Porque, bom, não acredito nisso. Os homens são importantes, tanto quanto as mulheres, os índios, os negros, acredito que sejamos todos iguais em importância, mas isso sou só eu, você pode achar que cachorros e gatos sejam mais importantes que os homens e mereçam um dia também, porque não?

Eu posso continuar acreditando o quanto eu quiser que homens, mulheres, negros, árabes, orientais e índios, tenham igual importância, até mesmo cachorros e gatos.  O que não quer dizer que o tratamento recebido, ou melhor, o tratamento que eles receberam será o mesmo, e em 99,9% das vezes, não é.

Os homens não são obrigados a passar por muitas situações ou constrangimentos ou julgamentos, aos quais outras parcelas da sociedade são obrigados a enfrentar. Por exemplo eles não fazem sequer ideia do julgamento e preconceito que as mulheres passam diariamente.

Se ela é uma chefe dura e exigente, é uma vaca de coração frio e sem sexo. Se fosse um homem seria alguém com caráter, honestidade, um homem de visão.  Se uma mulher transa com um cara na primeira noite, é uma vadia, e o cara é garanhão, um comelão. E isso apenas para começar, eu poderia passar o dia todo falando sobre essas diferenças, que em alguns lugares são bem mais marcantes.

O mundo é machista, a sociedade é machista, até algumas mulheres são machistas. Como diria a música de James Brown “this is a man’s world” e é mesmo, infelizmente. Um mundo onde o homem manda, julga e condena, e agora, se dá o próprio dia para se homenagear, e reclama se você fala que não faz sentido algum. É minha amiga, meu amigo, é como Napoleão que já mandava na porra toda e não satisfeito se auto-coroou. Pensando bem, Napoleão é o esteriótipo perfeito do homem.

Eles não são mais os responsáveis por colocar comida na mesa (afinal a mulher também trabalha fora) , não consertam a casa (existem serviços terceirizados para tudo inclusive colocar quadros nas paredes) e muitas vezes nem na cama servem(ou você acha mesmo que todo homem é um deus do sexo?), mas ainda sim, no final do dia, querem chegar em casa gritar pelo jantar e tomar uma cerveja assistindo televisão. Um segredo meu querido, isso não é ser homem.

Ser homem nada tem a ver com cuspir no chão, falar de sexo, futebol e carros. As características que formam um Homem são as mesma que formam uma Mulher. Caráter, honestidade, respeito, honestidade, humildade. Sem isso você não é nada mais que um monte de ossos se achando o rei do mundo, e não importa muito se você é homem ou mulher, é mais uma questão de princípios.

Você pode cuspir catarro no chão, ter um carro potente, ir no estágio em todos os jogos do seu time, sair para beber litros de cerveja com os amigos, mas se no final do dia você não sabe respeitar sua mulher (ou qualquer mulher) – e eu falo de respeitar mesmo, tratar de igual para igual – meu querido, você não vale mais mais que uma saco de batatas.

Então antes de exigir seu dia (mais por ego ferido do que por qualquer coisa) aprenda a ser um homem de verdade, e depois quem sabe, a gente discute a possibilidade de te homenagear em alguma coisinha, quem sabe em um domingo perdido no mês de maio?

ps : se você Homem não se enquadra na descrição acima, bom, desculpe. mas também, não há muito com o que se preocupar, já que o texto não é para você :)

ps²: sim, eu acredito que existam homens que não sejam assim, e tenho o prazer de conhecer alguns, mas, infelizmente eles são minoria.

Eu, eu mesma, sem Irene

Diz a sabedoria popular, que se conhece alguém por suas pequenas manias. Assim como só se sabe de uma pessoa aquilo que ela partilha sobre si. Pensei muito no assunto nos últimos dias, e cheguei a seguinte conclusão : Nunca fui do tipo que mostra muito sobre si, talvez poucos, as vezes quase nada. Muitos se espantam quando digo que sou tímida, o que algumas pessoas não entendem é que ser expansiva nada mais é do que uma forma de defesa.  Você nunca pensa muito em uma serpentina, está ocupado demais acompanhando seu brilho.

 

Por isso, resolvi mostra algo sobre mim, afinal, sempre foi mais fácil ser sincera aqui, escondida atrás de um computador, protegida pela saudável distancia da internet. Me achem medrosa, cautelosa, o que for… sei que sou tímida e retraída, não há muito que eu possa fazer para mudar isso, talvez, apenas tentar contar um pouco sobre mim, para facilitar um entendimento mutuo.

 

1 – Sou completamente extremista, vou de um extremo ao outro sem sequer parar para pensar. Costumo dizer (para mim mesma) que sou tão calma quanto uma bomba prestes a explodir. A melhor metáfora que posso fazer é como se fosse uma explosão que está segura por uma fina camada de qualquer coisa, que por qualquer motivo a qualquer momento se desfaz e libera a explosão.

 

2 – Sou apreensiva com tudo que não compreendo. Calma, não é tanto assim. Minha ansiedade com coisas que não compreendo está ligada a pessoas, quando não entendo a pessoa ou suas atitudes em relação a mim, fico ansiosa, nervosa e neurótica.  Mas quando o oposto acontece, ou seja, quando entendo a pessoa ou seus atos, sou absolutamente calma e paciente.

 

3 – Quando explodo, as únicas coisas capazes de me acalmar são música ou livros.

 

4 – Meu melhor medidor de ansiedade é chocolate. Minha necessidade por chocolate é diretamente proporcional a minha ansiedade.

 

5 – Ler é minha maior paixão, meu maior vicio, minha principal forma de libertação. Uns tomam um golinho de vinho a noite, outros abrem uma cerveja, eu sento na cama e abro um livro.

 

6 – As coisas que mais me irritam são pessoas intrometidas, desrespeitosas ou fanáticas. Embora preconceituosos e machistas também me tirem do sério.

 

7 – Não gosto que me toquem, é um tique que sempre tive. Detesto abraços, não suporto beijinhos e tenho agonia mortal com pessoas que me tocam demais. Apenas permito que cheguem próximo de mim pessoas que eu gosto, e ainda sim, só quando estou com saudade, fora isso, nunca chegue muito perto de mim.

 

8 – Tenho uma lógica própria, um jeito meu de fazer ligações e correlações entre assuntos distintos. A maior parte das vezes nem eu mesma sei o porque ou como, então me perguntar esse tipo de coisa é irrelevante, eu não tenho as respostas.

 

9 – Tenho amor incondicional por cachorros, bebês e animais em geral. Tenho horror a pessoas que os maltratam.

 

10 – Tenho paciência quase infinita para ouvir problemas, dúvidas e anseios alheios, mesmo que não sejam meus amigos ou eu não tenha tanta intimidade.

 

11 – Raramente divido segredos, por isso quando o faço espero que vão com você para o tumulo. Sigo a mesma conduta com as pessoas que contam segredos, não revelo nada nem sob tortura.

 

12 – Meu três maiores sonhos são : morar em Londres, escrever um grande e bom livro, ter um filho.

 

13 – Meus números da sorte são sempre ímpares, ou 7 ou 13, as vezes 3 ou 5.

 

14 – Quando ando na rua, nunca piso em linhas.

 

15 – Tenho medo de espelhos e do escuro, e ainda mais de espelhos no escuro.

 

16 – Mexer no cabelo, unhas ou dedos demonstra nervosismo e apreensão, geralmente quando estou nervosa, sob pressão ou quando não sei o que fazer.

 

17 – Dançar na chuva, contar estrelas e dormir na rede são meus pequenos prazeres favoritos.

 

18 – Lírios e flores do campo são as minhas favoritas. Detesto rosas, principalmente o cheiro, acho fedido.

 

19 – Adoro cantar e contar. Contar histórias. Canto no banho, andando na rua. Conto história antes de dormir.

 

20 – Dificilmente confio em alguém, ou gosto de alguém, mas a partir do momento que confio ou gosto, nunca deixo de senti-lo. O sentimento pode mudar, de amizade para romance, de romance para amizade, carinho, mas não deixa de existir.

 

21 – Amor para mim é o silencio. É quando você consegue ficar ao lado de alguém sem dizer nada, por horas, e não sente aquele silencio desconfortável, não existe aquela necessidade de preencher  o vazio, porque não há vazio. Quando você conseguir ficar uma hora simplesmente ao lado de alguém, sem dizer nada, então você ama essa pessoa. Bom é o que eu acho.